Diário da Quarentena- Cheirando a Guardado de tanto esperar

Por Caco Schmitt
Jornalista, roteirista e diretor. Trabalhou na TV Cultura/SP como diretor e chefe da pauta do jornalismo; diretor na Agência Carta Maior/SP e na Produtora Argumento/SP. Editor de texto no Fantástico, TV Globo/SP. Repórter em vários jornais de Porto Alegre, São Paulo e Brasília.

Chico Buarque me ajuda a lembrar como estou me sentindo agora. Enquanto a vida passa em mim, o turbilhão sufoca, me joga pra todos os lados do pensamento. Ecoa nas paredes, pergunta, apunhala sem dó: valeu a pena? Valeu a pena chegar até aqui? Aí, você é forçado a pensar, a responder, rever pedaço por pedaço, ato por ato do que você é. O reverso de ser feliz!
A gente vai levando, a gente vai levando… essa vida! Escuto música dos anos 70 (sempre amei os anos 70), mas não fico alegre. Enquanto corria a barca, por minha cabeça passa a nostalgia, invade e estraga tudo! Como assim? Faculdade, liberdade e luta por democracia, gente jovem reunida na parede da memória. Tempos de ardor; tempos felizes, mas aqui, cheirando a guardado, até os momentos iluminados provocam dores na alma. Que faltou fazer? De onde vem o sentimento de perda, de que algo faltou fazer… Por que olhar pra trás é igual a pisar no vazio? Ter saudade do que se fez ou do que se deixou fazer? De quem? Do quê? Da juventude que os anos enterram lenta e sarcasticamente? Qualquer maneira de amor vale a pena, valerá! Terá valido? Viajar pela Amazônia, índios, floresta tropical destruída, denunciar, denunciar e nada acontecer e ainda hoje denúncias. Nada vai acontecer! Minha mãe, menininha, a estrela mais linda…
Escuto música dos anos 80 e vejo abertura, mudança, com a perna no mundo, descer o São Carlos, pegar um sonho e partir, pensar que era um guerreiro… e pergunto: será que serviu pra alguma coisa? Lutar terá valido a pena? Anistia a alma, mas não consegue atenuar a dor da saudade. Brasília, nova república, São Paulo. Meu Deus, em que Clube da Esquina eu me perdi? Em que discoteca dancei, que nem vi que os monstros estavam todos ao redor, não percebi! Vivendo a aventura da vida em 78 rotações, metrópole, arranha-céus, ilusão. Blue Riviera, Madame Satã, Imelda Marcos, Piu Piu… Romaria, destino de um só… ilumina a mina e funda…
Escuto música dos anos 90 e ainda vejo Kid Abelha na colmeia onde tudo é permitido. Quero você do jeito que eu quero, e tudo passa muito rápido que nem lembro por onde andei, entorpecido, desligado e hoje, cheirando a guardado, pergunto: valeu a pena? Valeu a pena?
Anos 2000, que felicidade, que alegria, que decepção… o Mundo Novo não veio, e os monstros estavam todos ao redor e não percebi. Segui a lenda do outro mundo possível, e hoje a dor maior é do mundo que não conseguimos construir. Os monstros que rondavam saíram das cavernas e nós, que éramos tão felizes, nem notamos! E eles saíram dos esconderijos. Agora aqui, cheirando a guardado de tanto esperar, conto as dores quem nem posso abrir a janela, não posso ver o sol nascer. Não, não sou um pássaro que vive avoando… sou prisioneiro de uma gaiola. Não vivo avoando, nem nunca mais parar. Ai, ai, saudade, não venha me matar! Aí me lembro daquela música cretina da Roberta Flack: “Killing Me Softly with his Song”. E morro a cada acorde, de cada lembrança daquilo que tenho saudade!
O inventário da vida é igual a nadar contra a correnteza, é morrer a cada braçada. Eu não sou um rocket man… Mas vamos seguir na luta, pelo menos é o que acho que meu querido Chiquinho diria. Foda-se o mundo, que eu não me chamo Raimundo!

“Dedico essa reflexão ao meu querido amigo e irmão, Chico Daniel(aquele que cumpre o seu papel) cujo destino quis nos separar mais cedo” Caco Schmitt.

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Fonte Segura: Central de Jornalismo

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