Crônica S/A – O nada

Por Vicente Sá

Outro dia, mexendo numa caixa de velhas fotografias, deparei-me com uma do meu neto Yuri, ainda menino, e o Filosofo da Asa Norte, na rede aqui de casa. O FAN está semideitado e Yuri, em pé, ao lado. Os dois gargalham.
Lembrei-me do dia, uma manhã de maio, sol e surpresa. Minha filha me visitava e, coincidentemente, Tia Walkiria e o Filósofo também apareceram.
Os dois carros chegaram ao mesmo tempo num claro sinal de que o Sábado prometia.
Logo após os cumprimentos, as três mulheres, Lúcia, Tauana e Walkiria, se reuniram para uma sessão de culinária mágica e nos expulsaram da cozinha.
Pensei em MacBeth, mas o Filósofo, como se lesse minha mente, falou:

  • Estão mais para As Bruxas de Eastwick, de Updike. São belas.
    Concordei, meio sem jeito, enquanto o Profeta, inacreditavelmente, correu e ocupou, rindo, a única rede que tínhamos estendida no quintal.
    Lembrei-me de que era o anfitrião e conformei-me. Sentei-me numa cadeira, tendo, à mão, o Livro dos Seres Imaginários, de Borges. Mas, antes que pudesse iniciar a leitura, Yuri, do alto dos seus dez anos, me perguntou à queima-roupa: – Vô, o que é o Nada?
    Senti que ele devia estar com esta questão guardada, a incomodá-lo.
    Como péssimo anfitrião que sou, assinalei:
  • Ninguém melhor que um filósofo para lhe responder esta questão. Fale com tio FAN.
    Ele se achegou à rede e eu me concentrei no livro. Mas, de vez em quando, ouvia algumas passagens.
  • O Nada já foi e ainda pode ser encarado de diversas maneiras. Os gregos pensavam o nada como o ante ente, o não nascido. Já São Tomás de Aquino, como bom religioso, dizia que o nada, de onde Deus nos criou, é o escuro – que somos – e que só se torna luz quando se assemelha e aproxima de Deus. Mas ele era empregado da Igreja e, aí, não vale! Ele filosofava pro patrão.
    Sentindo-me culpado, busquei cerveja pro Filósofo e um suco pro meu neto. Na volta, invisível para os dois, ainda ouvi:
  • Mas o nada, para Sartre, era a possibilidade do tudo, do fazer. Não um oco, um escuro ou um vazio, mas a mola que nos impele a ser.
    Enquanto bebíamos nossa cerveja, senti que Yuri bebia a conversa. Estava feliz diante do desafio maravilhoso de filosofar.
    Saí para buscar mais cerveja e, quando voltei, eles já encerravam:
  • Yuri, pensar é muito gostoso. Filosofia é assim, a gente ouve os outros e, depois, pensa a nossa pensada, viaja na nossa viajada.
    Pigarreou, fez cara de sério e completou:
  • Sobre o Nada, eu gosto é daquela frase que dizem ser do Barão de Itararé, mas eu acho que é do Guimarães Rosa: “O nada é uma faca sem lâmina de que se lhe tiraram o cabo”. Sacou? Tipo uma escada sem degraus, de que um sacana ainda retira o corrimão. E aqui encerramos.
    Acho que foi nessa hora que minha filha tirou a foto.
    Yuri, meio tímido, disse:
  • Muito obrigado, tio FAN.
    O filósofo respondeu: – De Nada.
    E os dois meninos começaram a rir, e estão, até hoje, rindo na foto que guardo.
    Ah, e sobre o almoço que as três fizeram, eu conto depois. Mas adianto que foi uma delícia.

Vicente Sá
*dedicado à Tauana

Novo PS: As Crônicas S/A, agora, estão sendo publicadas no portal www.centraldejornalisamo.com.br e transmitidas pela Rádio Esplanada FM, todas as segundas feiras às 9 horas da manhã. Os leitores que quiserem ouvir minhas histórias pela minha voz devem acessar o site www.radioesplanadafm.org ou usar o aplicativo radiosnet.com. Até o próximo Domingo ou até amanhã

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Fonte Segura: Central de Jornalismo

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