A conversão de Ciro

Por Marcelo Pires para o Central de Jornalismo

O caso é que Ciro deu uma guinada. Ele esteve próximo da esquerda e dos valores do trabalhismo mas depois da eleição de 2018 ele fez uma conversão para a centro direita buscando sua sobrevivência política. É coisa dele. O cacique tem que viver, mesmo que pra isso tenha que matar a tribo. Essa movimentação não é novidade. O quadro que ele pinta hoje parece com a história de Ulisses ou Odisseu – o herói Grego da guerra de Tróia, com pouco caráter mas profundo sentimento de vida (não que esse aspecto se refira a Ciro).

Ulisses, após a vitória na guerra de Tróia que durara dez anos, quer voltar para casa junto com seus companheiros de batalhas e viagens, mas em seu retorno se perde no mar Egeu, e em suas desventuras acaba encontrando a ilha do ciclope Polifeno que o aprisiona com sua tripulação. Em um vacilo do gigante de um olho só, Ulisses e seus companheiros cegam Polifeno e conseguem assim fugir da ilha. Mas o gigante que era filho de Poseidon, Deus dos mares, pede a seu pai que castigue Ulisses, então Poseidon usa sua força e poder para impedir que Ulisses retorne a ilha de Ítaca para encontrar sua mulher Penélope e seu filho Telêmaco.

Após alguns anos perdido vagando de ilha em ilha e enfrentando diversas aventuras sinistras Ulisses consulta o oráculo de Delfos que o avisa que para voltar para Ítaca, veria morrer todos seus guerreiros e amigos de lutas, perdendo toda a tripulação de seu barco no empreendimento desse retorno. Ulisses veria perecer todos que com ele haviam embarcado para a guerra e agora buscavam juntos voltar para casa. Tal situação evocava um grande dilema ético para Ulisses, ou seja, avisar a tripulação, desistir do retorno e preservar a vida de seus guerreiros, ou, não revelar nada e continuar sua empreitada na volta para sua ilha.

Ulisses acaba optando pelo retorno sem nada mencionar a seus amigos sobre a previsão do oráculo, mesmo sabendo que todos que com ele seguem morrerão para que ele alcance seu objetivo pessoal. A vida de seus amigos e companheiros de luta passa então a valer o interesse de Ulisses de alcançar seu objetivo e chegar ao lugar que sempre almejou chegar.

O dilema de Ulisses se parece em muito com a condição de Ciro, que sabendo que sua empreitada o levará a imensas aventuras, sabe também que a cada uma delas perderá uma parte de sua tripulação, levando-o dessa forma, a busca desse objetivo que todavia se conseguir, será sozinho e distante dos ideais que habitavam nele e em seus companheiros que o auxiliaram nessa cruzada.

Na sua primeira aventura de construir uma frente ampla, se alia com alguns que foram seus inimigos e despreza quem também lutou contra Tróia. Nesse momento uma parte de sua tripulação e companheiros foi ao mar ou acabou devorada por Polifeno. A disposição de construir uma aliança com aqueles a quem já havia deixado no passado – passado de tempo e também passado de cumplicidade – resgatando para seu presente uma história que havia abandonado em nome de sua escolha pelo trabalhismo de Brizola, Pasqualine e tantos outros e seus legados, voltando a defender interesses que pertencem ao presente das velhas oligarquias endinheiradas e sedentas de rapinas, é golpe duro naqueles que embarcaram com ele nessa jornada de lutas e batalhas.

Sob pretexto de salvar o Brasil dos fascistas de Bolsonaro, todavia buscando se interpor para evitar que o poder caia novamente nas mão do povo, de onde foi surrupiado no golpe de 2016, tenta se impor como a figura do salvador capaz de fazer crer a muitos que sua empreitada, apresentada como altruísta, tem por fim defender o povo da tragédia que o assola – tragédia sanitária e econômica – mas não consegue esconder a verdade que teima em aparecer que o objetivo maior dessa empreitada é amparar os desesperados da elite que fizeram todo o esforço de levar ao poder a besta fera de um presidente alucinado e mal intencionado, no qual apostaram suas fichas, e começaram a perder, e, perder muito, mas que agora não o desejam mais no governo e precisam do acordo certo e preciso com Ciro para permitir colocar a coleira na fera mas continuar com o projeto liberal liderado por Guedes que atende a essa elite em seus desejos de rapina e espoliação.

A figura de FHC em seu cangote é garantia para a elite de que Ciro se portará bem e fará sua parte no acordo. É seu fiador e o homem por trás do acordo que tenta recuperar o poder do estado para as mãos da velha elite conservadora e reacionária que foi derrotada em 2002 e permaneceu sendo rejeitada pelo povo até o golpe de 2016 e que construíram o golpe judiciário com “lawfare” da lava jato para impedir mais uma vez esse retorno quando Lula em 2018 tinha 39% de intenções de voto contra 19% de Bolsonaro, e agora mais uma vez tentam o acordo por cima, entre os caciques do poder, para colocar uma coleira em quem eles elegeram e manter o projeto liberal, que negociaram para apoiar bolsonaro em 2018, para ser implementado em seu governo.

Ciro foi precipitado na arena pela elite (arena aqui não é o partido dos militares na ditadura do qual Ciro fez parte e teve sua primeira eleição em Sobral, tão somente me refiro ao local de lutas). Ele foi jogado no ringue. Ele foi enviado, mandado, para ocupar um espaço que estava reservado para o juiz da república de Curitiba (a quem de direito por mérito e serviços prestados caberia o lugar), mas, pela evidente ruína de Moro, que anda a caminho montada na garupa de Aras a mando de Bolsonaro, a situação deixou as pretensões da elite desajeitadas e necessitadas de apresentar uma alternativa emergencial. É aí que o contrapeso do brioche e cabernet Parisiense de 2018 achou seu espaço para virar a buchada de bode que tenta matar a fome de poder da elite que já não aguenta mais permanecer longe de seus privilégios.

O momento é difícil para a velha direita retomar o poder e se Ciro foi adquirido junto com Marina, enquanto Moro caiu do ringue, cabe evidenciar que a velha centro direita do PSDB não tem um bom nome para apresentar na disputa para 2022 e precisa de algo mais que Dória e sua liderança pálida no estado mais poderoso do país. A centro direita busca compor com Ciro uma aliança que possa convencer também uma parcela da centro esquerda, levando ainda na negociação um partido com capilaridade capaz de oferecer capacidade de enfrentamento em escala nacional.

A citação a Getúlio Vargas na fala de Ciro não foi casual, mas também não foi pelos motivos mais óbvios que poderíamos imaginar na evocação do trabalhismo histórico. Vargas se manteve no poder com dois partidos que o apoiavam, o PSD que arregimentava a centro direita da época, e, o PTB que reunia os sindicatos e movimento operário. Nada parece muito original nessa composição. Apenas o fato de parecer ser o que não é, e, acabar sendo justamente o que é, a manutenção de um projeto liberal na economia e retomada do poder pela elite que foi dele retirada em 2002. É uma nova versão do velho pacto por cima.

É um ensaio para 2022. As escaramuças e arranjos feitos neste momento compõem o cenário de aproximações e acertos que levam a acordos nas eleições municipais deste ano, subordinadas a novas regras eleitorais, compondo um quadro com desdobramentos que se precipitarão para 2022 na eleição presidencial.

Para pintar esse quadro Ciro oferece seu nome para desempenhar o papel a serviço da velha elite endinheirada associada a poderoso conglomerados de mídia que controla a classe média, aliando ainda os interésses – como costumava falar Brizola, que não morderia essa isca nem morto – dos setores conservadores e empresariais médios.

A presença de FHC é a garantia, o fiel da balança para a FIESP. No entanto, esse movimento da oligarquia que tenta juntar novamente seu poder econômico e político com o comando do estado, fato que não o consegue desde 2002, apenas por um lapso em 2016 nos dois anos do mandato Temer, pois com a vitória de Bolsonaro o estado lhes foge ao controle novamente, exceto pela política liberal na economia manejada por Paulo Guedes que foi colocado e mantido no posto – não o Ipiranga – para promover políticas de privatização do patrimônio público em favor de grupos nacionais e internacionais que querem rapinar e pilhar o país.

No entanto esse governo está levando o país a conflagração social por conta dos retrocessos irreversíveis na economia que vem solapando a estrutura social mas também destroçando parte do poder que a velha oligarquia mandatária concentra e não pretende partilhar com o lava-jatismo, bolsonarismo, militarismo, e os segmentos ruralista e igrejeiros tanto na disputa do espaço político como no poder de fato. A elite dialoga com esse grupos e até os usa para seus fins mas não aceita seu domínio menos ainda ter seus interesses submetidos por esses grupamentos de classe.

Para essas velhas oligarquias, que deram o golpe em 2016 mas acabaram perdendo a vez para a negação da política trazida pelo baixo clero e a escória política é urgente recompor seu poder sobre o estado, hoje ocupado pelo fascismo autoritário e violento das milícias que possuem um projeto de poder que submete a todos sob seu autoritarismo, inclusive dividindo e dominando essa velha oligarquia.

Para recompor seu poder sobre o estado os poderosos começaram o trabalho com uma composição capaz de atrair figuras como Marina Silva (e a classe média de Oslo – como bem define Jesse de Souza-, aliada com ruralistas progressistas, com o rentismo dos bancos, com setores evangélicos conservadores, e, garantistas ambientais).

Busca também incorporar, ainda que não definitivamente, Flávio Dino que busca carimbar o retorno do PCdoB a história, depois que foi massacrado e quase extinto desde o período Vargas, e durante, e após a ditadura militar. Dino legitimamente tenta criar a oportunidade que daria ao PCdoB um status de partido médio capaz de influenciar novamente o debate nacional, disputar eleições e ocupar espaços no poder de fato.

Finalmente, mas não por último, entra nessa história Guilherme Boulos, que parece estar nessa como observador, apesar de seu poder de fogo que não deve ser subestimado. Boulos sabe que pouca coisa pode ser oferecido pelo projeto da elite a ele e a seu povo nesse acordo por cima, mas ele pode colocar o povo na rua e oferecer uma face humana a esse projeto econômico da elite, e esse novo golpe precisa dele mais que ele precisa desses golpistas. De qualquer forma ele está observando pra que lado a banda toca.

Ciro, assim como Marina, não surpreendem com sua participação nesse quadro. Mais surpreendente seria a entrada em definitivo de Dino e Boulos que se entregariam a uma composição que em nada representa suas lutas históricas, se bem que na política muitas vezes o pragmatismo se sobrepõe a esperança. Quanto a Marina, ela está onde pode estar. Desde a eleição de 2010 ela caminha nessa direção tendo em 2014 apoiado Aécio no segundo turno em um abraço de afogado, sendo que agora enfim está chegando onde sempre quis chegar, compor o campo de poder da centro direita, todavia já não tem mais a expressão política que um dia sustentou. A grande novidade como fato, apesar de não surpreender pela expectativa, é a entrada de Ciro na banda.

Ulisses – o grego – participou da guerra em Tróia, contrariado, mas participou, e foi um dos idealizadores do Cavalo de Tróia, convertido em um sucesso de guerra, que, por meio desse ardil, possibilitou enganar os troianos e viabilizar a vitória grega na guerra depois de mais de dez anos de batalhas sem sucesso. A velha direita brasileira tenta criar as condições para vencer uma guerra que a mais de vinte anos vem travando sem que seus esforços tenham possibilitado cruzar os portões das muralhas. Então é hora de ficar atento para os cavalos de Tróia deixados como presente de salvação que podem definitivamente enterrar os anseios por um país soberano, altivo, democrático e plural.

Não é momento para salvadores da pátria e sonhos mirabolantes, menos ainda para terceirizar as grandes decisões do país à agenda dos endinheirados da velha elite ou da oligarquia carcomida que só sabe sugar este país em rapinagens legalizadas e pilhagens das riquezas.

Entregar o destino nas mãos das velhas raposas que maquiadas tentam voltar sob o manto do novo como se todos tivéssemos esquecidos como foi o governo de FHC com privatizações de empresas como a Vale, Usiminas, Telebras, e tantas outras que até hoje não se sabe onde foram parar os recursos – ou melhor, sabemos – além do arrocho salarial do funcionalismo que ficou durante oito anos de mandato sem reajustes, com salário mínimo de cinquenta dólares, entre outras políticas que destroçaram a base social e arruinaram economicamente o país.

É hora do povo ir as ruas e construir com suas próprias mãos o futuro que desejam e enfrentar a tragédia que se precipitou sobre este país fazendo a conversão pela luta na rua pela defesa intransigente de uma virada na política econômica e no projeto social de país, retomando e aprofundando as políticas públicas que foram iniciadas e estruturadas nos governos passados, recobrando ações para inclusão social, inversão de prioridades, redução da pobreza e da fome, investimentos sistemáticos e garantidos em educação e saúde, garantia de direitos sociais e distribuição de renda, geração de trabalho, recolocar a pauta do combate ao racismo e todas as formas de discriminações, controle de estado na preservação do meio ambiente e regulação para exploração mineira e petroleira, urbanização de favelas, restruturação e desmilitarização do sistema policial, combate à violência e a criminalidade, entre outros temas que devem ser enfrentados propondo um Brasil que saia da crise histórica em que se encontra e retome um projeto nacional de desenvolvimento.

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Fonte Segura: Central de Jornalismo

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