Crônica S/A – O Circo

Por Vicente Sá

As coisas nem sempre são o que parecem ser, até mesmo nas lembranças que as pessoas nos contam. Por algum motivo, normalmente doloroso, elas mudam aquela recordação, trabalham-na com esmero e arte e passam a relembrá-la nesta nova forma. Na maioria das vezes, mais atraente.
O homem, como eu, já não era moço, tinha as marcas do tempo no rosto e no olhar. Sentados, lado a lado, no ônibus, por horas, acabamos por conversar e, até mesmo, adquirir uma certa intimidade.
Pouco antes de anoitecer, quando a estrada parece nos conduzir de volta àquele mundo eterno de nossa infância, ele falou, com a voz grave das confissões:

  • Sabe, em outra vida, eu fui filho de um carrasco. Lembro bem. Meu pai era um homem taciturno pelo peso da sua profissão. Não a exercia na nossa aldeia, mas em outras próximas. As execuções em nossa pequena vila eram feitas por um outro carrasco, vindo de fora. Faziam assim para não haver inimizade nem vingança por parte da família do executado.
    Na quase noite, sua silhueta recortada na janela lhe dava um ar frágil e sereno.
  • Minha mãe, como as mulheres daquele tempo, quase nunca falava, e às crianças, como eu, nada era permitido. Mas eu sentia que a obrigação de tirar vidas estava tirando a vida de meu pai. Ele parecia carregar os mortos – que, ainda bem, não eram muitos – sobre os ombros, ao se arrastar pela casa, a caminho do quintal onde demonstrava ficar mais confortável. Sabíamos, eu e minha mãe, que ele estava perdido para nós.
    O ônibus sacolejou e ele pareceu aproveitar para mudar o rumo da prosa:
  • Mas, aí, o circo chegou em nossa aldeia e nós fomos uma noite. Os olhos de meu pai, eu juro, se incendiaram ao ver os palhaços e ele riu pela primeira vez na vida. Em casa, na manhã seguinte, cantou, dançou com minha mãe e me levou a pescar. Sozinhos à beira do lago liso e cercado de cantos de pássaros, me falou de sua mãe, que contava histórias, e de seu pai, que o fazia rir. Na semana seguinte, foi embora com o circo.
    Passou as mãos nos cabelos e disse em tom mais grave ainda:
  • Eu e minha mãe agradecemos aos céus pela sua salvação. Afinal, ele já estava morto em nossas vidas. Muitos anos depois – eu, já rapaz –, o circo voltou em nossa aldeia. O palhaço era de uma graça tímida, sem palavras, quase ternura. Rimos e choramos juntos. No outro dia, à hora do café, um homem seguro de si e alegre, entrou em nossa casa como se a conhecesse. Depois de algum tempo, o reconhecemos. Entregou uns tecidos a minha mãe, me presenteou com um jogo de argolas e se foi sem nos dizer se voltaria. Havia desaprendido a mentir.
    Parou, como se ensaiando um final e concluiu:
  • Pessoas que respeitam ou amam a vida, não podem exercer determinadas atividades. Meu pai conseguiu achar seu caminho, eu já não tenho mais como procurar.
    Despedimo-nos na rodoviária de Goiânia e nunca mais o vi. Soube de sua morte pelos jornais, anos depois. Era um matador profissional. Consta que carregava dezenas de mortes nas costas.
    A história que ele me contara no ônibus, embora ambientada em outra época e local, continha quase tudo de sua vida. Ele era o pai e era o menino ao mesmo tempo. A única coisa que lá não estava era o circo que ele, quando o conheci, já não se permitia encontrar.

Vicente Sá
Novo PS: As Crônicas S/A, agora, estão sendo publicadas no portal – Central de Jornalismo – www.centraldejornalisamo.com.br e transmitidas pela Rádio Esplanada FM, todas as segundas feiras às 9 horas da manhã. Os leitores que quiserem ouvir minhas histórias pela minha voz devem acessar o site www.radioesplanadafm.org ou usar o aplicativo radiosnet.com. Até o próximo Domingo ou até amanhã

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Fonte Segura: Central de Jornalismo

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