A história do travesti “Cintura Fina” retratada em livro, poderá virar um longa metragem.

Por Kleber Moraes/Central de Jornalismo

Luiz Morando, professor e pesquisador sobre memória do seguimento LGBTQIA de Belo Horizonte está finalizando o livro que conta a história do travesti José de Arimateia Carvalho da Silva, o “Cintura Fina”, com previsão de ser lançado ainda no segundo semestre deste ano.

O ‘briefing’ da história já chamou a atenção de uma produtora renomada que pretende se juntar ao pesquisador e escritor para roteirizar e filmar a interessante trajetória do travesti que marcou as noites da Belo Horizonte dos anos 50 e 60.
“Cintura Fina” ja foi citado de forma tangencial no livro de Roberto Drummond “Hilda Furacão”-1991 e sete anos depois, foi interpretado por Matheus Nachtergaele na minissérie homônima da TV Globo.

Vamos acompanhar e informar aos leitores do Central de Jornalismo sobre a evolução desse projeto.

As travestis em Belo Horizonte (1950-1969) – III
Cintura Fina nos anos 1950

Por Luiz Morando

José de Arimateia Carvalho da Silva nasceu em 3 de maio de 1933, em Fortaleza. Ficou conhecido como Cintura Fina a partir de 1952, já instalado em Belo Horizonte. Sua ficha criminal na Polícia Civil de Minas Gerais atesta: cor morena, olhos e cabelos castanhos, um metro e 73 cm de altura, várias cicatrizes no tronco e no rosto.
Em 1953, Cintura trabalhava como cozinheira no Hotel Nova América, na rua São Paulo. Na madrugada de 25 de julho de 1953 envolveu-se em seu primeiro delito. Por volta de uma hora, foi com uma amiga prostituta à Leiteria São Paulo, na rua Guaicurus esquina com São Paulo. Dois clientes dirigiram gracejos à amiga de Cintura, que não gostou e deu uma bofetada em um deles. O cliente revidou e foi ferido com uma gilete pela amiga de Cintura, que se envolveu na briga, sacando um “canivete-gilete” e ferindo o agressor no rosto. Essa circunstância projetou o nome de Cintura Fina na imprensa, demarcando o início de sua carreira como travesti brigona, que enfrentava vários policiais com sua navalha, mas, ao mesmo tempo, como companheira solidária e líder na zona boêmia.
Ao longo dos anos 50, Cintura Fina se envolveu em outros delitos que tiveram como consequência inquéritos policiais, denúncia e processos judiciais com sentenças de curtos períodos de detenção. Por exemplo, ainda em dezembro de 1953 ela se envolveu em outra briga, desta vez com o guarda civil Sebastião Brígido, em frente à Fábrica de Cerveja Antártica (onde hoje é o Shopping Oiapoque). Ambos saíram feridos: o policial, a navalha; Cintura, a tiros.
Em sua ficha criminal, consta que, entre dezembro de 1954 e setembro de 1956, ela foi conduzida seis vezes à polícia da capital, sendo uma por escândalos, uma como pederastia e quatro por vadiagem. Além disso, ela foi indiciada, em janeiro de 1954, por tentativa de homicídio, bem como em maio e novembro de 1956 por furto. Na intercorrência desses casos, era comum ela passar um ou dois meses no Rio de Janeiro para dar um tempo. Em uma madrugada de fevereiro de 1957, foi detida mais uma vez e acusada de assalto a um transeunte nas imediações da Feira de Amostras. Aguardou o desenrolar do inquérito em liberdade e desapareceu.
Então, tentando encontrar uma pista de Cintura Fina, deparei-me um dia com uma reportagem da edição carioca do Última Hora de dezembro de 1958: Cintura estava detida no Presídio da Ilha Grande. O célebre repórter Amado Ribeiro assim descreveu seu encontro com Cintura, em uma cela: “O chefe de Disciplina, sr. Ênio Silveira, que nos acompanhava, informou-nos que iríamos encontrar ali o famoso invertido sexual que atende pelo nome de ‘Cintura Fina’. Lá estava ele, realmente. Seu nome verdadeiro é José Arimateia Carvalho, um mulato gigantesco, arruaceiro contumaz e que, no instante de nossa visita, em uma roupa leve de mulher, pintava-se a um espelho, esclarecendo-nos que preparava a toilette noturna. O cubículo que é por ele ocupado, em companhia de outro anormal, José Zeferino da Silva, mais conhecido como Aidée, é todo enfeitado com cortinas e tapetes de cores berrantes. Peças íntimas femininas achavam-se atiradas, displicentemente, sobre um toucador, enquanto Aidée preparava as camas, trajado com uma elegante calça floreada. Ambos, excessivamente pintados, revelaram que, na quinta-feira última, foram os causadores de sério distúrbio dentro da prisão, entre presos que lhes disputavam as atenções.”

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Fonte Segura: Central de Jornalismo

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