Crônica S/A – Para Beth Fernandes – Lendas Urbanas

O povo adora uma história inventada e de preferência com requintes de absurdo. A expressão não é minha. É de um personagem conhecido de vocês, o Filósofo da Asa Norte. Nos encontramos outro dia na casa de tia Walkiria e ele estava animado e conversador. Também, depois de tanto tempo sem nos vermos, era de se esperar. De máscaras, chapéu e luvas – pois anda muito cuidadoso e repetindo o poeta Sóter, que diz que só os paranoicos sobreviverão – o Filósofo tecia comentários sobre as fake news e explicava que a lenda urbana é da família. Tipo assim, uma tia mais velha.- Antes de haver urbis, já existiam lendas, só que eram rurais ou silvestres. O ser humano adora uma história fantástica. Aqui, em Brasília, que é uma cidade nova, já temos várias lendas urbanas.Levantei e fui pegar a cerveja que tia Walkiria havia colocado a um metro de mim e votei ao meu lugar esperando os exemplos que ele, certamente, iria dar. Não demorou e ele começou:- Você já deve ter ouvindo falar do menino mais feio do mundo que nasceu no Hospital de Base em um mês de setembro, no auge da seca, e quando a enfermeira disse:- Oh! Que menino horrível! Ele respondeu, na lata – horrível vai ser a chuva que vai cair no dia 17.- Aí, a história se espalha e fica todo mundo esperando uma tempestade que nunca vem. Eu já ouvi esta história em 1972 e depois em 1993. Igualzinha. Olhei sério para minha lata de cerveja esterilizada e consegui disfarçar a vontade de rir, lembrando que também ouvira este boato nos anos citados. Mais uma vez, o Filósofo tinha razão.- E a loura da Vila Planalto? Quem nunca ouviu a história da loura bonitona que pega o ônibus na rodô de madrugada e, quando chega na Vila a loura sumiu. Descem os últimos passageiros e nada da loura. Quem não ouviu?Eu e tia Walkiria o acalmamos dizendo que os dois havíamos escutado esta história, em, pelo menos, três ocasiões diferentes. – Mas, argumentei, há outro boato em que a loura é um travesti que, nos fundos do ônibus, troca de roupa e guarda a peruca loura na sacola, argumentei jovial. Mas ele estava irredutível.- Pode ser. Não interessa o motivo da lenda, o fundo de verdade que todas elas têm. O fato é que algumas histórias são bem recebidas, circulam e se perpetuam nas cidades.O pequeno silêncio que precede o clímax foi feito e então ele puxou o ouro guardado:- A última que eu ouvi, envolve teu amigo Nicolas Behr. Dizem que ele andou fazendo experiências no viveiro e está obtendo resultados extraordinários. Segundo contam, ele andou colocando em vasos sílabas e pequenas palavras, adubando bem e regando dia e noite. Daí, nasceu uma árvore esquisita que traz pequenos poemas escritos em suas folhas brancas. Dizem que ele está escolhendo os melhores e vai montar um livro bilíngue, em português e alemão. Já tem até título: “A voz da natureza”.Estupefato, nem consegui sorrir. E antes que eu o interrogasse, perguntando por mais informações, ele me fez um sinal e continuou:- O pior é que ele não parou aí. Dizem que também andou enterrando livros inteiros nos vasos, tipo romances, e a coisa saiu do controle. E, por isso, ele tem sido visto com uma lanterna, de noite, andando e conversando com vultos nos fundos da loja. Falam que são personagens que nasceram dos livros plantados. A moça, que trabalha numa loja próxima, me disse que se deparou com Macunaíma e Galvez, o imperador do Acre, certa noite. Você não notou que o poeta anda meio diferente?Depois, ele riu e eu não sei se estava me zoando ou não. De qualquer sorte, se não foi o Renato Matos e o Edmilson Mapinguari que a moça viu, eu vou lá levar o meu Don Quixote para enterrar neste vaso milagroso e assim perpetuar a lenda. Sempre quis bater um papo com aquele velho magro e sonhador.Vicente Sá Novo PS: As Crônicas S/A, agora, estão sendo publicadas nos portais – Central de Jornalismo – www.centraldejornalisamo.com.br e www.aultimafolha.com.br e transmitidas pela Rádio Esplanada FM, todas as segundas feiras às 9 horas da manhã. Os leitores que quiserem ouvir minhas histórias pela minha voz devem acessar o site www.radioesplanadafm.org ou usar o aplicativo radiosnet.com. Até o próximo Domingo ou até amanhã.Ilustração – Gustave Doré

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Fonte Segura: Central de Jornalismo

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