Livro conta a história de Luiz Melodia, artista que desafiou o racismo na indústria cultural

Cantor e compositor morreu no dia 4 de agosto de 2017, aos 66 anos; biografia revela detalhes da carreira e da vida pessoal do ‘negro gato’

Por almapreta.com
Texto: Juca Guimarães I Edição: Nataly Simões I Imagem: Divulgação
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Por refutar o lugar do negro apenas como cantor de samba e não se dobrar aos desejos das gravadoras, o cantor carioca Luiz Melodia era considerado pela indústria cultural um artista ‘maldito’ e ‘difícil’. Mesmo enfrentando o racismo na carreira e diversos outros tipos de preconceitos, a figura ocupa um lugar de destaque na Música Popular Brasileira.

O livro “Meu nome é Ébano: A vida e a obra de Luiz Melodia”, do escritor Toninho Vaz, será lançado nesta terça-feira (4), data em que se completa três anos da morte do compositor. A biografia traz detalhes da trajetória de Luiz Melodia, que lançou seu primeiro álbum, Pérola Negra, em 1973, revolucionando a cena musical com uma maneira própria de cantar e letras profundas sobre o cotidiano carioca e seus personagens.

Luiz Melodia é filho do compositor Oswaldo Melodia e pai do rapper Mahal Reis, que herdou o talento, a criatividade e a autoestima racial do pai. “Meu pai é uma pessoa coletiva. Ele atinge todas as classes com a sua música. A obra dele é atemporal e belíssima. Pérola Negra foi como o renascimento para a favela, lá nos anos 70, é um disco sobre a beleza e a psicologia humana”, afirma Mahal Reis, em entrevista ao Alma Preta.

Melodia foi perseguido no período da ditadura militar, na década de 1970. A música “Feto, Poeta do Morro”, de 1972, foi censurada e a primeira gravação só aconteceu em 2020. “Ele sempre foi muito espiritualizado, muito sofisticado e humilde. Ele falava para mim que na ditadura era muito complicado, muita gente morreu. Era muita violência para quem subia o morro. Um preto passear pelo calçadão de Copacabana era difícil, as pessoas discriminam muito”, recorda o filho.

A música do artista, por outro lado, sempre foi livre. “Era um cara que veio do morro e fazia jazz. Isso irritava as pessoas, ele foi criticado por isso. É a ignorância do ser humano. As pessoas têm medo do que não conseguem entender e raiva do que não conseguem conquistar. Meu pai sempre foi único e a indústria não se conformava com a genialidade dele, vindo da favela e sendo preto, e com jeito dele. É um reflexo da imundice do racismo no mundo”, considera Reis.

Em 15 capítulos e mais de 330 páginas, o livro traça também uma apurada pesquisa sobre as 146 músicas gravadas por Luiz Melodia em álbuns como Maravilhas Contemporâneas (1976), Mico de circo (1978), Nós (1980), Felino (1983), Claro (1987), Pintando o sete (1991), Relíquias (1995), 14 quilates (1997), Retrato do artista quando coisa (2001) e Zerima (2014).

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