Delegado vítima de racismo no DF divulga carta e não aceita pedido de desculpas

Em carta lida em sessão solene na Câmara Legislativa, o delegado Ricardo Viana lembrou outras vítimas e disse que um pedido de desculpas não é suficiente; saiba mais

Por Lelê Teles
Compartilhamento: Central de Jornalismo

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O delegado da Polícia Civil do Distrito Federal, Ricardo Viana, divulgou uma carta nesta terça-feira (11) onde descreve o encontro que teve, no Lago Sul, área nobre de Brasília, com familiares do homem que o xingou de “macaco”.

Segundo o delegado, ele teve uma conversa cordial com o irmão e o pai do seu agressor, no entanto, avisou a seus interlocutores que nada pedissem em relação ao processo que move contra Pedro Henrique Martins Mendes, 35, que, antes de ofendê-lo, já havia sido denunciado por humilhar um gari com ofensas racistas, chamando-o de “neguinho”.

Este é mais um entre outros milhares de casos de agressão de cunho racista que ocorrem no país e que, infelizmente, a grande maioria ainda permanece sem repercussão, com a vítima despedaçada emocionalmente e os agressores livres para continuarem cometendo crimes.

Porém, nesse caso, parece que o processo não vai se encerrar com meras escusas. O crime de racismo é, aliás, o único crime em que o réu tenta se livrar da acusação fazendo um cínico pedido de desculpas.

“O homem negro não é um homem, é um homem negro”, dizia o psicanalista Franz Fanon, no livro Pele Negra Máscaras Brancas, evidenciando que o tom da pele ainda é traço definidor de uma certa humanidade ou da falta dela.

“Não nasci delegado, mas sim, negro, caçula de oito irmãos, filho de uma Raimunda e de um Antônio, ambos nordestinos, os quais migraram para esta cidade em busca de melhores condições de vida. Aqui nasci e pretendo viver como cidadão, isto é, em igualdade com os demais que aqui habitam”, afirma o delegado.

A carta foi lida pelo deputado distrital Chico Vigilante (PT) em sessão virtual da Câmara Legislativa do Distrito Federal. Nela o delegado lembra, ainda, os outros casos recentes que tiveram repercussão na mídia.

O acusado, Pedro Henrique, tem passagens pela polícia por uso de drogas e lesão corporal, e já havia se manifestado por meio de um texto endereçado “ao senhor Ricardo, à sua filha, aos familiares e a todos os seres humanos”, onde pede desculpas pelo ato infame, diz-se solidário à dor de suas vítimas e que seu destempero não “é reflexo de sua educação, do amor e do respeito que recebi e que carrego como preceitos básicos.”

O homem que assina a carta não se parece em nada com o que, na sexta-feira passada, xingou o delegado de forma agressiva e anti-empática. Nas palavras da vítima, “ele falou que iria me pegar, me chamou de macaco e viado e arremessou um pé de sua chinela em minha direção”.

Preso em flagrante, o agressor ainda tentou fugir, mas não obteve êxito. Com ele a polícia apreendeu uma porção de maconha.

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