Crônica S/A – Passeio amigo

Vicente Sá

Caminho por uma rua/ Que passa em muitos países/ Se não me veem, eu vejo/ E saúdo velhos amigos.

Meus leitores sabem que gosto de caminhar pela cidade, e pela Asa Norte, então! Mas, nestes tempos difíceis de pandemia, tive que me lembrar dos versos acima, de Drummond, musicados pelo Milton Nascimento para, utilizando alguma artimanha, fazer minha caminhada mental e matar as saudades da rua e das pessoas.Comecei, devagar, pela 716 Norte. Passei na lanchonete Gabriela, tomei um cafezinho preto com adoçante, comi um pão de queijo e ouvi comentários sobre os ipês amarelos e suas intervenções artísticas na cidade. – Eles são terríveis, surgem de repente, do nada, e se apresentam com suas roupas berrantes, se destacando contra o céu do planalto. É um espetáculo para corações fortes, me disse o Manoel, dono da lanchonete.Concordei calado e segui meu caminho. Em Brasília, os ipês têm fã clube e torcida organizada. Cada uma com sua cor preferida. E coitado de quem ousar discordar ou se contrapor com outra cor ou, pior ainda, outra espécie de planta. Já vi rolar até xingamento.Continuei meu passeio e, já na 714, me deparei com o Filosofo da Asa Norte, absorto, a folhear um livro, sentado no restaurante Du Pará. Me convidou para uma Cerpa e eu quase não aceitei, mas, depois de consultar meu telefone e ver que a umidade do ar estava em 16 por cento, topei. Na minha idade é importante cuidar da saúde.Seguimos, depois, caminhando, eu e o Filósofo, e nos deparamos com My Teacher tirando a carteira do bolso e tentando passar um dinheiro para o Profeta, que não aceitava.- Droga, este cara não é mole. Falou que vocês iam chegar em cinco minutos e eu não acreditei. Resultado: perdi vinte mangos. Esse Profeta não erra uma. Como é que fica a cerva de antes do almoço, reclamava My Teacher, ainda tentando passar, sem sucesso, a cédula para o Mago das Previsões.- Se for pra ficar pensando melhor, eu pago, rebateu o Filósofo, citando Chico Science, desanuviando o ambiente. Dinheiro de volta à carteira e nós de volta à caminhada no rumo do Chicão. Eu estava com a língua coçando para contar, mas o Profeta me fazia sinais para que eu esperasse mais um pouco. Por fim, sentamos à mesa e, com cervejas em nossos copos, eu contei que enviara um zap ao Profeta assim que saímos do restaurante da 714. De lá para a doze não dá nem cinco minutos. Estava explicada a razão da profecia certeira sobre nossa chegada. My Teacher, com seu bom humor habitual, apenas olhou para o Profeta e riu alto:- Ainda bem que esta história é um sonho do Vicente. Como eu sei? É simples, estamos todos sem máscaras e sem receio. É isso, Profeta! Só em sonho você consegue me enganar!Todos na mesa gargalhamos e eu acordei ainda rindo e com um gosto bom de cerveja gelada na boca. Sei que não vai acontecer, de novo, tão cedo, mas eu vou colocar a música Canção Amiga pra tocar mais uma vez, ela é muito linda e induz a boas viagens.

PS: As Crônicas S/A, agora, estão sendo publicadas nos portais – Central de Jornalismo – www.centraldejornalisamo.com.br e www.aultimafolha.com.br e transmitidas pela Rádio Esplanada FM, todas as segundas feiras às 9 horas da manhã. Os leitores que quiserem ouvir minhas histórias pela minha voz devem acessar o site www.radioesplanadafm.org ou usar o aplicativo radiosnet.com. Até o próximo Domingo ou até amanhã.

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Fonte Segura: Central de Jornalismo

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