Crônica S/A – A história de Yasmim e o senso de oportunidade

VICENTE SÁ

Alguns leitores me escreveram perguntando como começou minha amizade com o Filósofo da Asa Norte, que eu tanto cito em minhas crônicas. Pois bem, hoje eu conto. Uma das coisas que me chamou a atenção no Filósofo, no dia que o avistei pela primeira vez, foi a sua capacidade de contar histórias e o seu senso de oportunidade, além de sua inteligência e bom caráter.

Mas, vamos ao dia.Ele contava uma história para uma roda de crianças que estavam sendo cuidadas por tia Walkiria, em uma creche, onde ela trabalhava como voluntária. Era final de tarde, eu tinha ido encontrá-la e fiquei ouvindo a narrativa:- Havia em Basra, na terra das mil e uma noites, atual Iraque, uma bela jovem que era cuidada por seu pai, um rico comerciante, de forma tão restritiva que ela mais parecia uma prisioneira.

Vivia trancada em seu quarto, de onde só saía para orar na mesquita e para as aulas particulares com um professor eunuco.Ao completar dezessete anos, Yasmim, este era o nome da moça, rezava todos os dias, pedindo para conhecer um rapaz bom e educado, com quem pudesse conversar e se divertir um pouco. Tanto rezou que lhe surgiu, um dia, no quarto, um gênio jovem e até bonitinho. Explicou-lhe que ouvira suas súplicas e se oferecia para ser o jovem que ela tanto pedira. Adiantou que estava em uma fase chamada Orgum, que é quando os gênios ficam sem poderes e só podem atender aos desejos de jovens donzelas como ela. Contou de suas aventuras como gênio e de reinos distantes que visitara e ela encantou-se tanto com sua fala e modos que começou a namorá-lo.

O pai da moça, vendo sua filha de repente tão feliz, desconfiou e acabou por descobrir o rapaz em seu quarto. Irado, prendeu o jovem gênio sem poderes e ameaçou matá-lo de forma cruel, sob acusação de ter seduzido sua filha e manchado seu nome e de toda a família. Não via, o pobre homem, que a moça havia descoberto a felicidade ao lado do rapaz-gênio.Mas, na noite que antecedia o chicoteamento do rapaz, a moça foi visitá-lo e conseguiu convencer os guardas a deixá-lo fugir. Os dois juraram amor eterno e prometeram que ficariam juntos, um dia, de qualquer maneira.

O pai ainda tentou dissuadi-la, trazendo testemunhas da cidade, que diziam ser o jovem um rapaz comum que trabalhava na feira vendendo lenços de seda. Mas a moça não mudou de ideia e, algum tempo depois, fugiu com o rapaz e foram morar em Bagdá, onde ele passou a viver como contador de histórias. O jovem falava de lugares distantes, de aventuras incríveis e era tão bom nisso que ganhava muito dinheiro e eles puderam viver com tranquilidade por muitos anos. Um dia, já passado muito tempo de vida juntos, seu pai, que havia perdido muito dinheiro fazendo negócios ruins, foi visitá-la e pediu que ela falasse com seu marido e, se ele fosse mesmo gênio, que o enchesse de riquezas para ele voltar ao comércio. Se isso não acontecesse, com o tanto que ele devia, decerto iria para a prisão, onde morreria, pois estava velho e doente.

Yasmim, então, falou com seu marido e perguntou se ele nunca mais voltaria a ser um gênio. Ele quis saber se ela não estava mais feliz com ele assim como era, se queria que ele voltasse a ser gênio. A mulher tola, pensando no seu pai, pediu que ele voltasse à forma de gênio. Mal ela falou e uma grande tempestade, com muito vento e areia invadiu a casa e todos ficaram sem enxergar por um bom tempo. Quando a tempestade amainou, ela estava de volta aos seus dezessete anos, presa no seu quarto, rezando para encontrar um rapaz. E se suas orações voltaram a ser atendidas como foram antes é uma outra história, que começa num dia e termina num mês e eu só contarei pra vocês na próxima vez.Todas as crianças, incluindo eu e tia Walkiria, se encantaram com a história e com o Filósofo contador, é claro. Os leitores mais curiosos vão perguntar pelo senso de oportunidade e vou responder: nesta mesma noite, o Filósofo levou minha tia à Escola Parque, onde acontecia um festival e cinema alemão.

Depois foram jantar e começaram um namoro que dura até hoje. Quer mais senso de oportunidade que esse?

Vicente Sá

Administrador

Fonte Segura: Central de Jornalismo

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