Crônica S/A – A Chuva


Para Lúcia Pulcherio

Vicente Sa

Não sei se o leitor já reparou, mas o brasiliense é um apaixonado pela chuva. Talvez em consequência das longas temporadas que ficamos sem ela – só esse ano foram 120 dias – e da constante baixa umidade do ar. O certo é que as primeiras chuvas são recebidas como crooners de bandas de rock, com entusiasmo juvenil. Tem gente que canta e dança na chuva, como naquele musical, outros filmam e mandam pros amigos e grupos. Já ouvi poemas e canções sobre a chuva de setembro. Eu mesmo estou aqui, escrevendo uma crônica sobre ela. Então, por que o espanto, caro leitor? É coisa de brasiliense, está em nosso sangue, em nossa alma forjada no barro vermelho e no martelar das construções. Ser candango – na definição atual: todos os que vivem no DF e o amam – é se encantar com as chuvas de setembro. É, até, mais que isso: é parar na rua para admirar uma poça d’água em sua singela mistura de terra e céu. É a vontade de se tornar o cão do hai kai de Millôr Fernandes e lamber a lua que lá repousa*.Brasiliense é assim, exagerado com a chuva de setembro, ao ponto de contar as gotas que balançam nas folhas do pequizeiro florido e com frutos.Esta semana, ela veio e foi até manchete dos jornais da cidade. Hastag mais comentada que as tolices do governo ou as queimadas no Pantanal e da Amazônia. Uma unanimidade que não é tola, é brasiliense. Filhos ligam para os pais e contam como está chovendo na sua região e perguntam se seu ente querido se ariscou a caminhar um pouco sob ela, enviando sinais de seu desejo oculto, de, como Gil, ficar bem molhadinho de chuva.Pudesse alguém capturar e envasar o cheiro da terra molhada da primeira chuva, não só venderia horrores, como a cidade teria um cheiro só. Até ouviríamos comentários: – Este perfume é da chuva de 2007, sinta só! Foram 140 dias esperando por ela. Por isso, este forte cheiro de terra esturricada ao fundo.O que é pego distraído em sua caminhada para casa, chega como herói, molhado e feliz, a enlamear a sala e o carpete, sem que a companheira reclame, apenas o olhe com um misto de inveja doce e admiração pela sua sorte. – Nossa! Como você ficou ensopado, querido!Alguns, mais sensíveis, choram e aplaudem das janelas dos apartamentos, a conversar com os pássaros como se um também fosse. Embriagados pelo cheiro que sobe e pelo som da chuva, cantarolam canções há anos esquecidas em algum lugar da memória e lembram de amigos e parentes que tanto amaram. Podem ser vistos a tiritar nas sacadas, úmidos de frio e felicidade. Esta noite, dormirão sob cobertas, como se meninos fossem e alguns até sentirão o beijo materno antes de fechar os olhos.A chuva de setembro em Brasília é assim, deixa até o mais sóbrio cronista a delirar redondilhas no seu computador para cobrir uma melodia que só ele ouve.Vicente Sá(*) Na poça da rua/ O vira-latas /Lambe a lua – Millôr Fernandes

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Fonte Segura: Central de Jornalismo

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