Mourão elogia torturador à TV alemã, e democracia segue no pau de arara

Por Leonardo Sakamoto/Uol
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Central de Jornalismo

Leonardo Sakamoto: “É inacreditável que ainda precisemos explicar o porquê isso tudo é muito ruim estando, em tese, em uma democracia. O que nos leva a crer que podemos estar sonhando – pesadelo, claro. Ou a democracia foi sequestrada e segue no pau de arara no Brasil”

O diabo mora nos detalhes, principalmente naqueles que não são ditos. Questionado sobre o fato de Jair Bolsonaro considerar o finado torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra um herói nacional, o vice-presidente, Hamilton Mourão, afirmou que ele “era um homem de honra, que respeitava os direitos humanos de seus subordinados”.

De seus subordinados. E só.

O açougueiro Ustra foi chefe de um dos principais centros de repressão da ditadura, o DOI-Codi, em São Paulo, acusado de tortura, desaparecimento e morte de presos políticos. Chegou a ser declarado pela Justiça como responsável por casos de tortura e também condenado a pagar indenização por conta da morte do jornalista Luiz Eduardo Merlino. Fez escola e seus métodos são, hoje, repetidos pela banda podre da polícia.

A opinião do general da reserva, dada ao canal de TV alemão Deutsche Welle, não é novidade. Até porque ele também já chamou o finado coronel de “herói” mais de uma vez. Como em 28 de fevereiro de 2018, em seu discurso de aposentadoria do Exército. Certamente o finado chefe do DOI-Codi não foi incensado por seus belos olhos ou pela forma pela qual fazia um guisado de frango ou jogava tranca.

Ou no dia 08 de setembro do mesmo ano, em meio à campanha eleitoral, em sabatina na GloboNews, quando Mourão disse que “heróis matam” ao falar do torturador. Considerando que Ustra espancava e matava quem não podia reagir por já estar preso e sob tutela do poder público, diria que o exemplo de herói do vice foi um sujeitinho bem covarde.

Mas, se não é novidade, por que o caso ainda choca? Talvez porque o vice-presidente deu uma passada de pano “tipo exportação” em um torturador. Ou porque, diante da inação de instituições que deveriam questionar esse tipo de declaração, a indignação é a única coisa que resta.

E por que algo que aconteceu há tanto tempo é tão importante? Por continuar se repetindo.

Durante as sessões de tortura realizadas no 36º Distrito Policial (local que abrigou a Oban e, posteriormente, o DOI-Codi), na capital paulista, durante a ditadura militar, os vizinhos do bairro residencial do Paraíso reclamavam dos gritos de dor e desespero que brotavam de lá. As reclamações cessavam com rajadas de metralhadora disparadas para o alto, no pátio, deixando claro que aquilo continuaria até que o sistema decidisse parar. Mas o sistema nunca para por conta própria.

A tortura firmava-se como arma da disputa ideológica. Era necessário “quebrar” a pessoa, mentalmente e fisicamente, pelo que ela era, pelo que representava e pelo que defendia. Não era apenas um ser humano que morria a cada pancada. Era também uma visão de mundo. Dizem que os carrascos não podem pensar muito no que fazem sob o risco de enlouquecerem. Mas também dizem que os melhores carrascos são os psicopatas que gostam do que fazem. E se dedicam com afinco a descobrir novas formas de garantir o sofrimento humano. Muitos dos que fizeram o serviço sujo para a ditadura e passaram por aquele prédio amavam sua “profissão”. Ustra era um deles.

O Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) era integrado por membros do Exército, Marinha, Aeronáutica e policiais. E a metodologia desenvolvida durante esse período, junto à certeza do “tudo pode”, continua provocando vítimas pelas mãos do Estado nas periferias das grandes cidades, nos grotões das regiões rurais, onde a vida vale muito pouco. Principalmente se ela for negra.

“A maioria é tudo cascata para ganhar indenização.” Foi assim que Jair Bolsonaro chamou as denúncias de tortura ocorridas durante a ditadura, em conversa com seus fãs, na porta do Palácio do Alvorada, no dia 29 de março deste ano. Negar que houve tortura, apesar de torturadores atestarem o que fizeram (alguns com orgulho), de sobreviventes revelarem as marcas em seus corpos e as sequelas em suas mentes, das fotos, dos registros, dos cadáveres, seria um absurdo em qualquer lugar decente. Mas, no momento em que estamos no Brasil, é apenas parte do cotidiano.

O presidente reclama dos que afirmam que a abominável facada que ele levou, em setembro de 2018, foi uma cascata para ganhar a eleição. Mas não se importa em dizer que denúncias de tortura são cascatas de quem quer receber compensações.

É inacreditável que ainda precisemos explicar o porquê disso tudo estando, em tese, em uma democracia. O que nos leva a crer que podemos estar sonhando – um pesadelo, claro. Ou a democracia foi mesmo sequestrada no Brasil e presa a um pau de arara.

Em tempo: Em textos como este, normalmente surgem seres que bradam que ditaduras de esquerda também torturaram e mataram, como se isso justificasse o horror cometido pela direita. Sim, torturaram e mataram e, infelizmente os envolvidos não foram punidos. Mas se não há tempo para eles, talvez ainda haja para que pessoas que relativizam o terror com o terror do outro possam se despir de sua ignorância.

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Fonte Segura: Central de Jornalismo

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