Enfim, a cura para a doença de Chagas

Antes tarde do que mais tarde; pesquisadores da UFOP obtém êxito depois de nove anos de trabalho

Por Alberto Sena
Central de Jornalismo
24 de dezembro de 2020

Foi enorme a minha satisfação ao deparar com a notícia: “Pesquisadoras da UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto-MG) descobrem cura para a Doença de Chagas em animais de laboratório”.
Compartilhei a boa notícia no Facebook e esperei que suscitasse uma porção de ‘comentários’ e ‘curtições’, afinal, a Doença de Chagas ou ‘Tripanossomíase americana’ já matou e ainda vai matar milhares, senão milhões de pessoas. Mas, ao que parece, a notícia não repercutiu o suficiente devido à dose de preconceito em relação a doença.
Desde criança ouço falar dela. Natural de Montes Claros, ouvia os adultos falarem a respeito do inseto hospedeiro do ‘Trypanosoma cruzi’, que transmite a doença. Ele é conhecido vulgarmente por ‘barbeiro’, inseto da subfamília ‘Triatominae’.
Na América Latina, segundo as estatísticas, há oito milhões de pessoas sofrendo da Doença de Chagas. E eu, diante da notícia e da estatística pensei com as mangas de minha camisa: “Se a Doença de Chagas fosse Aids, que geralmente envolve pacientes de posses, a cura já teria sido encontrada há muito tempo.
A Doença de Chagas acomete vítimas pobres, miseráveis. Décadas atrás, a incidência dela já foi pior, mas ainda há por esses sertões muito ‘barbeiro’, cada dia mais buscando maneiras de se procriar.
Se antes eram encontrados nos casebres de pau a pique, nas regiões do Norte de Minas e do Vale do Jequitinhonha, hoje em dia, é detectado até em canaviais e em produção de açaí, porque o seu habitat, as florestas, está sendo devastado.
Ainda refletindo sobre a notícia da descoberta de cura para a Doença de Chagas, recordei-me do esforço do médico João Valle Maurício, de Montes Claros, ex-secretário de Estado da Saúde, que durante anos pesquisou e cuidou de doentes picados pelo ‘barbeiro’.
Recordei-me também de que, durante os 22 anos vividos em Montes Claros, onde nasci, nunca tive vontade de conhecer as belezas cênicas de Grão Mogol, de tanto que ouvia dizer, na infância, ser “um lugar infestado de barbeiros”.
Só recentemente, quando lá fui morar, pude compreender isso e tirei todo o atraso vivendo intensamente em Grão Mogol, onde para mim Deus demorou um pouco mais para criar.
O lugar é lindo. Podia estar sendo explorado turisticamente, mas os seus administradores nunca se deram conta disso. Nem deram ao lugar o seu real valor.
‘Barbeiros’ eram encontrados em quantidade, em Grão Mogol. Mas, não só em Grão Mogol. São João da Ponte também era infestado. Tanto que o meu tio Abel Sena Leite, que lá morou, morreu com a doença, anos depois, em Montes Claros, para onde se transferiu com a família.
A pesquisa foi iniciada em 2009, a partir da união de pesquisadoras da Escola de Farmácia (EFAR) da UFOP, atuantes nas áreas de pesquisa em plantas medicinais, nanotecnologia e parasitologia.
O objetivo era “encontrar um medicamento para a cura da Doença de Chagas nas fases aguda e crônica”. Existem, segundo as estatísticas, cerca de oito milhões de portadores da doença crônica na América Latina, e 10 mil mortes ocorrem a cada ano.
“As drogas existentes para o tratamento, além de tóxicas, não são eficazes na maioria dos pacientes com infecção crônica”, disseram as pesquisadoras.
O início de tudo foi a partir do “conhecimento prévio de que a substância licnofolida, retirada da planta arnica, é capaz de agir contra o parasito ‘Trypanosoma cruzi’, agente etiológico da doença de Chagas”.
No processo foi utilizada metodologia científica inovadora, a nanotecnologia. A professora Vanessa Carla Furtado Mosqueira, especialista na área, desenvolveu nano-capsulas para serem administradas por via intravenosa ou oral nos animais, objetivando revelar sua ação no tratamento da doença.
O novo tratamento, além de agir nos parasitas do sangue, age também nos que estão dentro dos tecidos, o que não acontece nos tratamentos até agora existentes. Assim, a chance de cura do paciente nas fases aguda e crônica aumenta.
Segundo as pesquisadoras, curar a fase aguda é mais simples, visto que a infecção ainda é recente e a resposta terapêutica é melhor, pois o medicamento tem a chance de atuar nas formas sanguíneas, predominantes nessa fase da doença.
Mas, para esse medicamento ser industrializado e testado em humanos, é preciso um esforço da UFOP junto aos laboratórios farmacêuticos públicos ou privados. “Precisamos de apoio”, disseram as pesquisadoras. Em minha opinião, é aí onde mora o problema.

*Alberto Sena é jornalista e escritor, autor do livro Nos Pirineus Da Alma, no qual conta as suas duas experiências no Caminho de Santiago de Compostela, na França e na Espanha, podendo ser adquirido pelos correios.

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