Crônica S/A – A semente

Vicente Sa

Meu amigo FAN, o Filósofo da Asa Norte, é que me diz que quando um amigo se vai, nós ficamos com um lugar a menos para ir, uma caminhada a menos para dar, perdemos uma conversa, que não mais será levada, porque o outro não estará lá para completá-la.Cresci e me tornei gente e poeta aqui em Brasília. Estou aqui desde 1968, são mais de 50 anos de muita amizade e amor a Brasília e às pessoas que comigo convivem e conviveram. Cada quadra me lembra alguém, cada boteco, uma história. Mesmo nos gramados esquecidos da Asa Sul, as lembranças da adolescência correm atrás de uma bola entre gritos e risos. É impossível para mim caminhar em Brasília sem recordar de um tanto de gente, de papos, de namoros, composições e muitas, muitas boas histórias.Posso passar horas me lembrando de casos de cada bar ou restaurante que frequentei durante estes quase vinte mil dias e noites que passeei por esta cidade. Aqui fizemos tal música, ali inventamos tal história, acolá, naquela noite, conhecemos o grande fulano de tal e travamos uma bela noite de prosa. O Liga Tripa passou por aqui animado aquele dia e nós fomos atrás, lembra? É claro, eu mesmo me respondo e continuo minha caminhada no rumo do futuro.E os teatros? Quantas maravilhas vimos. De algumas, chegamos a assistir o parto, vê-las engatinhar, andar, ensaiar e depois se apresentar, já moças feitas, encantando a todos, inclusive a este assistente de parto. E, quando morre um destes artistas amigos, aí acende-se mais uma estrela no céu e apaga-se uma luzinha nas ruas de Brasília.E a vida é assim mesmo, a gente acaba se acostumando, dizem todos.Mas essa partida do Hugo Rodas…Embora soubesse que um dia aconteceria, não estava preparado e senti como se todos os teatros da cidade escurecessem de uma só vez, um blackout e tanto.É claro que logo pude ver uma pequena luz, quase um vagalume colorido, e ouvir a risada cheia do Uruguaio mais brasileiro, mais universal que conheci. Risada de quem está preparando mais um grande final de uma peça, pois, afinal, quem plantou tantas luzes, iluminou tantas almas, quem ensinou que os homens são deuses quando no palco e tudo podem criar, não sairia sem deixar uma semente nalgum canto do teatro, nalguma sala de ensaio, talvez dentro da gente.Resta a nós, que ficamos, procurar bem e quando achar, regar, cuidar e esperar o dia da estreia. Vicente SáEscrito Depois: quem passou pelo velório/espetáculo no teatro Galpão deve estar dizendo que a semente já germinou e cresce forte.

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Fonte Segura: Central de Jornalismo

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