‘O que afeta PIB é a aprovação da Previdência’, diz Meirelles em entrevista ao Globo

Um dia depois de ser apresentado por seu partido, o PSD, como potencial candidato à Presidência da República, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, afirmou que não vê problema em continuar a ser o comandante da agenda econômica. Em entrevista ao GLOBO, ele disse que seu foco agora é consolidar o crescimento e aprovar a reforma da Previdência e que o cenário só mudará se ele decidir, de fato, entrar na disputa eleitoral em março. Meirelles admitiu que será ruim se as agências de classificação de risco rebaixarem o Brasil devido ao adiamento da votação da reforma, mas argumentou que pior será se as mudanças no regime de aposentadorias não forem aprovadas: “Como já escrevia Nelson Rodrigues, nada mais brutal do que o fato”.

O PSD apresentou o senhor como candidato à Presidência anteontem. Como o senhor vai conciliar ser ministro da Fazenda e candidato?

Não existe necessidade dessa combinação. Pelo menos até o fim de março, serei, em período integral, ministro da Fazenda. Não sou candidato, não estou em campanha. Minha prioridade total e foco é no ajuste da economia. Evidentemente que, caso venha a tomar uma decisão lá na frente, aí vou pensar. No momento estou 100% dedicado ao sucesso da recuperação da economia.

O que é fator decisivo para o senhor sair candidato?

Não fico pensando sobre isso. No momento, penso em consolidar a trajetória de crescimento, aprovar as reformas fundamentais.

O senhor foi a estrela do vídeo do PSD, mas seu partido não fechou questão sobre a reforma da Previdência, que o senhor defende. Como se sente diante disso?

Eu defendo fortemente a reforma da Previdência dentro e fora do partido. E, caso a votação fosse esta semana, como era a visão inicial, eu já teria me reunido com a bancada do PSD. Com a votação em fevereiro, haverá tempo de conversar com os partidos e mostrar os ganhos da Previdência, inclusive eleitorais. Se a reforma não for feita, teremos, em dez anos, 80% do Orçamento ocupados pela Previdência e não vai haver dinheiro para saúde, educação, segurança, ou emendas parlamentares. Isso é inviabilidade evidente. Não é questão de opinião.

O senhor deixa o partido se ele não fechar questão?

Prefiro não adiantar possíveis decisões. Não trabalho por hipótese.

Caso o presidente Michel Temer resolva ser candidato, o senhor sairia da disputa?

Não estou pensando nisso agora, e ele também não. Hoje, ele respondeu que é candidato a fazer um bom governo. Quando foi perguntado se eu seria candidato, ele perguntou se eu era candidato, e eu disse que ia decidir no fim de março. Estamos totalmente sintonizados e tudo vai muito bem, isso é o importante.

O adiamento da reforma deu mais tempo para a aprovação, mas também para os servidores fazerem lobby por mais concessões. Como o governo vai administrar a pressão?

É legítimo que cada categoria defenda seu interesse. Inclusive categorias que defendem privilégios. Isso é constitucional. Mas nossa função é defender o interesse público e a possibilidade de que o país continue pagando suas contas e as aposentadorias no futuro.

Não tem que ceder. O governo tem a sua proposta. Os servidores não procuraram o governo. Eles não vieram aqui na Fazenda ou na secretaria de Previdência, foram aos parlamentares. Nós defendemos a nossa proposta. É uma questão de justiça previdenciária. O fato de alguém propor não quer dizer que tenhamos mudado nossa proposta.

Como foi sua conversa com as agências de risco para explicar o adiamento da reforma? A S&P sinalizou que pode rebaixar o país já na semana que vem.

O que eu fiz foi mostrar que o adiamento visou a aumentar as chances de aprovação. E mostrei o porquê. Me pareceu uma conversa produtiva.

Qual é o efeito de um rebaixamento do Brasil agora?

Um rebaixamento não é positivo porque aumenta um pouco a percepção de risco. Os investidores olham para as agências, como olham para outros indicadores e têm sua própria avaliação do Brasil.

O rebaixamento tem impacto sobre PIB e juros?

O que afeta PIB e juros é a aprovação ou não da Previdência. Muito mais do que a opinião das agências. Como já escrevia Nelson Rodrigues, nada mais brutal do que o fato. E o fato vai ser ditado pela Previdência ser aprovada ou não.

Como fica o Orçamento de 2018 sem a aprovação das medidas de ajuste de curto prazo?

No limite, sempre existe a possibilidade de contingenciamento para assegurar o cumprimento da meta fiscal.

E eventuais aumentos de impostos?

Não existe intenção de aumentar a carga tributária além do previsto com a MP que tributa os fundos exclusivos. A substituição desta medida por outra é viável, possível, plausível. Mas isso não é carga tributária maior. Mas temos que aguardar a arrecadação agora para atualizar a projeção de receita para 2018. Espera-se que possa surpreender do lado positivo. Dependendo do cenário, talvez não seja nem necessário (aumentar impostos).

É possível subir o IOF?

Não sei. Vamos primeiro projetar qual é a arrecadação de 2018.

Sem uma reforma da Previdência, ficará difícil cumprir o teto de gastos em 2019. O governo não botou o carro na frente dos bois ao aprovar o teto antes da reforma?

Não. Se não tivesse o teto, nós não teríamos condições sequer de discutir a reforma da Previdência. O teto tornou premente e objetiva a discussão da Previdência. E isso restaurou a confiança da economia, dos agentes econômicos, e o país voltou a crescer, criar empregos e aumentar a arrecadação, que é um dos resultados importantes do teto. Sem ele, nós poderíamos estar ainda numa recessão, o que tornaria mais difícil todo esse processo. O desemprego continuaria a aumentar.

Mas isso não convenceu o Congresso a aprovar a reforma.

A reforma da Previdência é controversa, difícil, em qualquer país do mundo. Não só no Brasil. Seria surpreendente se aprovasse tranquilamente, sem grande discussão. Isso não a torna menos necessária, premente ou importantíssima.

Eu brinquei com o presidente do Banco Central, meu amigo Ilan (Goldfajn), que eu iria analisar a carta dele com muita atenção para ver exatamente quais são as justificativas. O que aconteceu no Brasil foi uma situação de alta incerteza e de desorganização da economia que fez com que as empresas aumentassem os preços, buscando manter margem, mesmo com as vendas caindo. Isso não é uma coisa usual, para dizer o mínimo. No momento em que o Brasil acertou as contas públicas, os preços relativos, o mercado começou a funcionar. Com o Banco Central fazendo seu trabalho bem feito, a expectativa de inflação caiu, e a economia voltou ao normal.

Como o senhor vê a negociação entre Boeing e Embraer?

A parceria e o aporte de capital estrangeiro na Embraer são muito bem-vindos. Por outro lado, o interesse estratégico do país é no sentido de que o controle da Embraer não deva ser vendido porque a empresa tem um grande papel no desenvolvimento tecnológico. É uma empresa que tem um papel que vai muito além daquelas aeronaves. E tem também a questão militar. A Embraer é a fabricante de equipamentos militares no Brasil e parceira da Aeronáutica, com projetos conjuntos, como é o caso do caça Gripen. É uma indústria estrategicamente importante.

O Brasil já passou por uma grande fase de privatização de empresas e agora esse assunto voltou com Eletrobras. Privatização da Petrobras, da Caixa, como o senhor ver isso?

Isso não está em discussão no momento. Eu acredito que nós, como qualquer coisa na economia, temos que ir passo a passo. O momento é foco, discussão, esforço e trabalho na formatação da privatização da Eletrobras. Discussões sobre todos os aspectos é uma forma de não fazer nada, gerar muito ruído sem conseguir nada. O foco na Eletrobras sem abrir outras frentes de discussão é fundamental nesse momento.

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Fonte Segura: Central de Jornalismo

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