As Forças Armadas têm um encontro marcado com o pós-Bolsonaro.

Graças aos generais Luiz Ramos, Braga Netto e Eduardo Pazuello, não se sabe mais onde começa o governo Bolsonaro e onde terminam as ações do Exército, numa mescla de interesses e aparelhamento que nunca se viu em tempos democráticos.

Por Thomás Traumann
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Central de Jornalismo
1º de maio de 2021

Só que o bolsonarismo vai acabar um dia, como antes se encerraram os ciclos do getulismo e do regime militar.

E as Forças Armadas terão de contar uma história.Hoje essa história está longe de ser bonita. Do 4º andar do Palácio do Planalto, o ministro general Luiz Ramos promoveu uma ocupação de funções civis por seus colegas de farda verde-oliva. Para qualquer problema complexo, Ramos convenceu Bolsonaro a tomar uma decisão simples: nomear um general. Na saúde, o saldo está perto de 400 mil mortos por covid e uma vacinação capenga que deve se prolongar até o ano que vem.
Se o general Ramos foi o responsável pela maior derrota das Forças Armadas desde a batalha de Ituzaingó, na Guerra Cisplatina, 2 comandantes mostraram que existem outras opções. Em maio e junho de 2020, quando Jair Bolsonaro assediava os ministros do Supremo Tribunal Federal os comandantes do Exército, general Edson Pujol, e da Marinha, almirante Ilques Barbosa Junior, foram firmes ao informar ao seu chefe, o então ministro da Defesa, general Fernando Azevedo, que não embarcariam na aventura. Noves meses depois os três estavam demitidos e o general Ramos deslocou o seu colega, general Braga Netto, para o Ministério da Defesa.

Essa troca diz muito sobre Bolsonaro e sobre como as Forças Armadas querem ser vistas no futuro. O presidente já inoculou nos seus seguidores o vírus da desconfiança das urnas eletrônicas e vai fazer da falta de votação em papel um eixo da campanha. Ele irá novamente inventar que as urnas atuais foram importadas da Venezuela, que os ministros do TSE estão mancomunados com os adversários e que a única possibilidade de derrota seria através de uma fraude. O discurso de Braga Netto ao assumir o Ministério da Defesa, propositalmente confundindo as funções de Estado das Forças Armadas com a sua obediência ao governo de plantão.

Caso Bolsonaro perca as eleições de 2022, não cabe ao general Braga Netto decidir quais interesses as FAs irão seguir.

Conhecendo os ímpetos golpistas de Bolsonaro, os militares serão chamados a fazer a transição pacífica em caso de derrota eleitoral do presidente. Preparar a volta às casernas não vai apagar a negligência do general Pazuello na covid-19, mas abre espaço para as Forças Armadas em geral, e o Exército brasileiro em particular, deixarem o papel de ameaça à democracia.

Sobre voltar às casernas, uma história curta: em 7 de dezembro de 1989, duas semanas depois da eleição de Fernando Collor, o então presidente José Sarney reuniu 10 ministros na Granja do Torto para discutir a sua renúncia. O país estava mergulhado na hiperinflação e como à época a posse só ocorreria em 15 de março, o ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega, sugeriu a renúncia para antecipar o início do novo governo. Eram 5 os ministros militares no encontro, mas o que mais falou foi o general Leônidas Pires Gonçalves, ministro do Exército: “O senhor não tem o direito de sair e deixar uma bomba-relógio”. O general estava particularmente irritado com a possibilidade de a renúncia manchar a imagem dos militares na transição democrática.

Sarney sentou-se na cabeceira da mesa e pouco falou na reunião, que durou mais de 3 horas. Ao final, pediu uma votação. Foram 4 votos pela renúncia, uma abstenção e 5 pela continuidade do mandato do mandato até o final.

A atitude do general Leônidas foi fundamental para tirar as Forças Armadas do palco político.

Com as idas-e-vindas do governo Sarney, o ministro do Exército foi a mão forte que parou as seguidas tentativas de sublevações nos quartéis, inclusive de um jovem capitão que planejou em 1988 bombardear as guarnições no Rio de Janeiro em protesto contra os soldos baixos. O general pediu ao Superior Tribunal Militar a expulsão do capitão incendiário por “macular a dignidade militar”. Graças a um acordo, o capitão não foi condenado, mas obrigado a deixar a corporação. Ele se chamava Jair Messias Bolsonaro.

Texto de Thomas Traumann, retirado de

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Fonte Segura: Central de Jornalismo

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