Esta 2ª marca o dia em que o capital disse a Bolsonaro: “Tchau, querido!”

Por Reynaldo Azevedo
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Central de Jornalismo
2 de setembro de 2021

Acabou o amor. O grande capital produtivo e o financeiro não querem mais saber de Jair Bolsonaro. Custaram a perceber o compromisso do presidente com o desastre? Acho que sim. No fundo, caíram na mesma ilusão dos generais da ativa e da reserva. Como assim?

Os donos do dinheiro imaginaram que o presidente iria mesmo terceirizar a economia para Paulo Guedes. Realizada essa operação, aí bastaria, vamos dizer, manter sob controle o ministro da Economia. E pronto. A turma oriunda da caserna também fez aposta semelhante: eles tocariam os grandes projetos de infraestrutura, retirando o que imaginavam ser as mãos sujas dos políticos da coisa pública.

E Bolsonaro? Ah, seria um animador de auditório. Enquanto, então, a mão invisível do mercado e a mão pesada da milicada iriam “mudando o Brasil”, o palhaço se encarregaria de animar o salão. Crença tola de uns: “Guedes é a âncora de confiabilidade, e, portanto, o presidente não ousará confrontá-lo”. Crença tola de outros: “Somos todos militares, e, no fim das contas, vai se preservar o senso de hierarquia. O capitão é destrambelhado, mas vai se comportar, e nós sabemos o que é bom para o Brasil”.

É curioso, mas, nas contas dos endinheirados e dos militares, não entraram o Congresso e o Supremo. E, claro!, a pandemia não estava no radar de ninguém. Mas a história é assim mesmo, não é? Existem os imprevistos e o imponderável. A propósito: o Estado não surgiu para responder ao previsível, mas para enfrentar o imprevisível. Diante do incerto, há de valer o que está pactuado.

INVENTOU OS INIMIGOS
Não que o Congresso tenha criado grandes dificuldades para o presidente. Essa é uma baita lorota. Tampouco as criou o Judiciário. Ao contrário: nos momentos em que o Executivo realmente precisou do concurso dos dois Poderes, eles compareceram. Ou teria sido impossível enfrentar a pandemia sem o caos social. Sim, estão aí quase 600 mil mortos. Deixadas as coisas para Bolsonaro-Guedes, lutaríamos, a esta altura, uns contra os outros com paus e pedras.

Nem a turma da grana nem os oriundos dos quartéis imaginavam que Bolsonaro iria, digamos, governar… Apostaram que ele faria o que nunca havia feito ao longo de 28 anos de mandato na Câmara: render-se a quem sabe mais do que ele e aprender com a experiência. Em nenhum momento, nestes dois anos e oito meses de mandato, deixou de ser aquele parlamentar exótico, que falava o que lhe desse na telha — e, invariavelmente, a coisa errada.

AS MILÍCIAS DIGITAIS
Todos eles foram surpreendidos pela vinculação estreita que o presidente decidiu manter com uma aguerrida militância de extrema direita que as redes sociais tiraram da toca. Vá lá: talvez o termo “militância” não seja tão preciso porque essa horda não tinha organicidade, não estava conectada, obedecendo a palavras de ordem.

Tratava-se de uma miríade de burrices reacionárias, atrasadas, truculentas, que acabaram encontrando o seu líder. Com a ajuda do tal “guru”, essa gente ousou também construir até uma metafísica, um sistema de crenças. E, contra a previsão da turma da grana e da dos generais, formou-se uma milícia digital, que também se manifesta nas ruas, muito pouco interessada na eficiência, na governança, na tal “pauta liberal”.

A história de que, pela primeira vez, “conservadores se juntariam a liberais” para impor uma nova dinâmica na vida econômica brasileira é só um delírio tolo de Paulo Guedes. O que ele chama “conservadores” são antediluvianos interessados em impor aos demais as suas estreitas e torpes ideias de moral e de bons costumes, transformando em dogmas inegociáveis sua tacanhice ideológica e sua visão essencialmente autoritária e truculenta de poder: o líder, munido de bons propósitos, manda, e os demais obedecem.

Durante a campanha eleitoral, Bolsonaro evidenciou mais de uma vez seu desapreço pela democracia e por conquistas civilizatórias nestes mais de 30 anos de redemocratização. Não se limitava a ignorar os avanços. Com frequência, fazia a apologia dos piores dias da ditadura, o que evidenciava pretensões perigosas caso chegasse à Presidência.

E ele não desistiu delas. Passou a investir no discurso golpista logo nas primeiras manifestações. Com impressionante celeridade, começou a se desfazer de aliados incômodos que ou evidenciavam a necessidade da política — caso de Gustavo Bebianno — ou o compromisso com o profissionalismo e a racionalidade de Estado, como o general Santos Cruz.

É claro que os dois participaram da onda reacionário-conservadora que levou Bolsonaro ao poder. Mas tiveram a clareza, correta em si, de não confundir campanha eleitoral com gestão de Estado. Foram banidos do poder como traidores. O presidente deixava claro que não aceitava a tutela nem mesmo das instituições e que iria se cercar apenas dos que não estavam dispostos a contraditá-lo. Bolsonaro, saibam, não é do tipo que dá ao interlocutor a licença de dizer a verdade. Toma-a como ofensa pessoal.

O acordo com o centrão, que parece estranho nessa trajetória, só se explica pelo receio de ser impichado. Já imaginaram se, hoje, ele tivesse com o Congresso a relação que mantinha em 2019, quando seus sectários, estimulados pelo próprio, iam para as ruas pedir a cabeça do centrão? É evidente que já teria caído.

O INEXPLICÁVEL PREVISÍVEL
Sim, houve os sortilégios da pandemia, mas a realidade política poderia ser outra se, mesmo com todas as dificuldades em curso, Bolsonaro tivesse, vejam como escrevo, ADERIDO À REALIDADE. Mas não! Aquele que chegou como expressão da horda de reacionários escolheu a mentira em vez da verdade, a fantasia em vez dos fatos, o charlatanismo em vez da ciência.

Qualquer um que ouse tentar explicar por que ele fez isso não encontrará uma resposta objetiva: ele fez essas opções porque é esse o seu sistema de valores. É um homem absolutamente convencido de todas as suas ignorâncias.

O país estaria, sim, em situação difícil ainda que tivéssemos um gênio da tolerância e da sensatez no comando da política. Mas temos um ogro. A gestão — e parte cai nas costas dos militares, sim — é um desastre, e o renascimento econômico antevisto por Guedes na fusão entre ditos liberais e conservadores não aconteceu. Ao contrário: o “Faria Loser” está hoje empenhado em fazer malabarismos para ver se Bolsonaro ganha uma folga eleitoral.

HORA DE CAIR FORA
Acabou a graça. Bolsonaro não cumpriu o que dele se esperava no arranjo: ser apenas um palhaço retórico do antiesquerdismo — já que, também nesse particular, ele tem muitos insultos a desferir e nenhuma ideia na cabeça.

O homem ousou governar e achou que tinha um plano. E seu plano de governo ainda é “Brasil acima de tudo; Deus acima de todos”. Desde que ele próprio e seus filhos não sejam importunados pela Polícia.

Deu tudo errado. E não tinha como dar certo. O dinheiro grosso desembarcou. A tarefa de Bolsonaro era não atrapalhar os lucros. Ocorre que ele passou a dar prejuízo.

Que seja abandonado por pragmatismo, ainda que não por elevado senso de moral. Mesmo assim o Brasil agradece.

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Fonte Segura: Central de Jornalismo

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