Crônica S/A – O anel

Vicente Sa

O anel

“Que tudo que é do mundo dos sonhos fique no mundo dos sonhos. Nada devemos trazer de lá”, Miguel de Cervantes.Estou no Rio de Janeiro e, talvez devido ao sol forte e ao calor, as sombras aqui são muito valorizadas, até mesmo disputadas. Foi numa dessas disputas de sombra que conheci Irene Laura, uma senhora carioca que me contou e fez viver este caso que narro para vocês.Eu nunca havia me encontrado com Irene Laura, mas ela me conhecia de facebook, de ler minhas crônicas, e acredito que a tal disputa pela sombra foi um arranjo dela para que pudéssemos conversar.Sabendo que gosto de falar de sonhos, me contou que andava preocupada pois tinha recentemente sonhado que ficava noiva de um homem estranho e cheio de poderes mágicos. Este mago, se o podemos chamar assim, lhe pedira que usasse um anel de cobre como símbolo de seu compromisso e ela acordara com o anel no dedo na manhã seguinte. O interessante, me disse ela, mostrando a mão nua de joias, é que algumas pessoas o veem e outras não. Eu lhe falei que nada via e ela sorriu um pouco triste, mas continuou sua história.- Sei que os dois mundos, o dos sonhos e o nosso, o real, não devem se misturar. As consequências podem ser desastrosas ou enlouquecedoras para as pessoas envolvidas neste escambo entre mundos, mas me aconteceu e agora sofro por isso. Quando olho no espelho, por exemplo, não me vejo do outro lado, de frente, como seria o normal, mas enxergo um quadro, uma paisagem, na qual estou diminuta em frente a uma casa no campo. E comentou: – É difícil acertar o batom a uma distância tão grande.Sorri e me admirei de sua presença de espírito ao brincar com um problema tão grave em sua vida.A tarde estava chegando ao fim, a praça São Salvador passou a receber mais e mais pessoas e nosso banco ficou cheio. Ela me convidou a acompanha-la até sua casa em frente ao Largo do Machado. Seguimos e Irene Laura foi me falando que agora, de vez em quando, via e ouvia carruagens e pessoas com trajes de outras épocas. Tinha medo que seu mundo e o dos sonhos se tornassem uma coisa só e temia também dormir e encontrar de novo com o mago que a queria como noiva. Me disse que havia sonhado que eu a salvava tirando o anel do seu dedo e jogando-o num bueiro. Me implorou para que assim o fizesse e a livrasse do noivo e dos tormentos que estava passando.Tocado pela dor que ela demostrava, peguei sua mão e busquei o anel. Fechei os olhos com força e por um instante o senti na ponta dos dedos. Mesmo sem vê-lo, o arranquei e, como ela me pedira, atirei-o na direção do bueiro ao lado do metrô.- Calhorda, eu ouvi uma voz forte e grave às minhas costas e ao me virar ainda vislumbrei um homem de chapéu se desvanecer no ar. Hoje, sábado, na praça São Salvador, Irene Laura me abordou e entregou uma garrafa de vinho branco como agradecimento. Neste momento, com o ventilador ligado e uma taça ao lado, escrevo, no laptop da minha companheira, esta crônica que publicarei amanhã. Espero que aquele mago de chapéu não se importe que eu conte este caso. Irene Laura já me autorizou. Caso haja alguma retaliação, reagiremos e vocês, caros leitores, saberão na semana que vem.Bom domingo.

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Fonte Segura: Central de Jornalismo

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