Crônica S/A – Tonico, o filósofo

Por Vicente Sa

– Quem somos e de onde viemos? Eu perguntava a mim mesmo enquanto caminhava e devo ter não só pensado como falado, pois o menino respondeu ao meu lado me dando um pequeno susto:- Eu sou Tonico e venho de Cocalzinho. Meu pai e minha mãe vão trabalhar uma semana na casa daquele moço, seu vizinho, e, não tendo com quem me deixar, me trouxeram. Vou perder uma semana de aula, mas, depois, recupero. Mas o senhor não sabe, mesmo, quem é nem de onde veio? Que coisa!Olhei o menino alegre e conversador e me lembrei de alguns amigos da infância, lá em Pedreiras. Nós também puxávamos muita conversa com quem passava na nossa rua. Antes que eu pudesse falar alguma coisa, Tonico continuou com aquela tranquilidade e intimidade que o tempo vai nos tirando à medida que crescemos.- O moço disse que o senhor é escritor, poeta… por isso que o senhor não sabe quem é, perdeu o juízo de tanto ler?Respirei fundo e tentei explicar:Não falava só de mim, mas de todos nós, todas as pessoas do mundo. Quem somos e de onde viemos é uma pergunta filosófica, é tipo o que fazemos da vida, entendeu?Ele passou a andar se equilibrando sobre o meio fio e continuou falando como se conversasse com um menino igual a ele.- Esta é fácil, toda a gente é uma gente e tem um nome, José, João, Maria e todos eles vieram de algum lugar, ou Cocalzinho ou Pirenópolis, até mesmo de São Paulo vem gente. E essa de o que fazemos da vida é fácil também, cada um faz o que gosta ou precisa, eu gosto de brincar, banhar no rio, então, eu brinco e banho no rio, assim, sou um menino bom e feliz. Eu estudo, também, porque preciso e acho que aprender é muito legal, ajuda a gente a conversar, como eu estou fazendo com o senhor, agora. Manda mais pergunta que eu tô gostando.Invejando sua sabedoria infantil, perguntei, para provocá-lo, sobre o Nada.Ele não se fez de rogado, catando uns gravetos no chão, me explicou:- O nada não é tão ruim quanto parece, é melhor que o tudo. Pois onde já tem tudo, a gente não pode fazer nada. Mas onde não tem nada e preciso que se faça tudo e como gente gosta de fazer coisas, o nada é melhor pra nós.Me deu vontade de perguntar onde ele estudava e saber se eles tinham aula de filosofia, mas ainda com a inveja me instigando, cutuquei insanamente meu novo amigo:- E o envelhecer, como você vê o envelhecimento?Ele me olhou, pensou um pouco e, sem diminuir o passo, me respostou:- Olha seu escritor, eu sou muito novo ainda, tenho pouco conhecimento do envelhecer, só envelheci até os onze anos, mas posso lhe dizer que foi legal. Acho que é como uma corrida ou uma caminhada longa que a gente chega cansado no final, mas viu muita coisa e brincou muito. Não deve ser tão ruim assim. Por que o senhor pergunta? Não tá gostando de envelhecer?Devo ter ficado vermelho, mas ainda bem que crianças não ligam para isso e ele parou embevecido com o canto de um passarinho.- É um João Bobo, ele me disse, apontando uma a árvore de onde o canto vinha. Ele canta junto com a mulher dele, em dupla, igual no Goiás. E olhando pra frente, como se visse o futuro, perguntou delicado:- Amanhã o senhor vai caminhar de novo? Posso andar com o senhor? Prometo que vou falar menos…Confirmei e garanti que ele poderia andar comigo desde que ficasse à vontade, calasse e falasse quanto quisesse.Aí, ele se virou e voltou correndo para casa, depois de iluminar o meu Sábado e deixar o resto da caminhada em silêncio. Mas agora eu seguia tranquilo, já sabia de onde vinha, pra onde voltaria e que Domingo, no meu passeio, teria uma boa companhia.Vicente SáArte Guilherme Leão-

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Fonte Segura: Central de Jornalismo

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