Crônica S/A-Uma vacina de outro mundo

Por Vicente Sá
Ilustração de Guilherme Leão

Atribuem a Leiv Nicólaievitch Tostói o conceito de cantar o mundo imenso cantando sua pequena aldeia. Me aproprio do conceito, então, para justificar mais uma crônica falando da Asa Norte. Desta vez, falo do Clube Unidade de Vizinhança dos Extraterrestres, cuja entrada é pelo armarinho da dona Mirtes, na 707 Norte. Digo entrada porque o imenso clube não caberia dentro da loja, com seus dois campos de futebol, piscina, sauna e tudo mais que qualquer clube Unidade de Vizinhança terráqueo possui. Afinal, eles copiaram o projeto na íntegra.
Só que usaram uma dobra de tempo/espaço e o enfiaram dentro do banheiro do armarinho! Assim, aos finais de semana – antes da pandemia – era comum vermos algumas pessoas de bermudas e camisetas, puxando os filhos pela mão, entrarem no armarinho – que sempre abriu aos sábados o dia inteiro e domingos, pela manhã – e só saírem no final da tarde. Mas, como, na Asa Norte, ninguém liga muito para a vida dos outros, isso nunca foi comentado.
Era lá que os mochileiros das galáxias, como eles gostam de ser chamados (menos os venusianos, que são uns chatos), promoviam seus encontros e festas intergalácticas ou quando queriam ficar só entre eles, dando um tempo de nossa companhia.
Mas, apesar de ser um conhecimento importante, a que vem a informação sobre o clube dos mochileiros? Explico: é que, por conta das diferenças orgânicas, a vacina contra Covid para os extraterrestres teve que vir de fora, mais precisamente de Órion e o único local de vacinação discreto encontrado foi o clube. Dona Mirtes foi comunicada, a comunidade mochileira avisada e tudo estava pronto para começar no sábado passado, mas um grupo de chatos venusianos, alegando que a vacina era perigosa e que teria efeitos colaterais, interceptou a nave e se apropriou da carga de vacinas, que vinha miniaturizada em uma pequena garrafa de vidro azul.
Etelvino, o mais antigo ET da Asa Norte e uma espécie de líder espiritual dos mochileiros, não teve outra alternativa senão contratar os serviços do detetive intergaláctico Andro 15, que, aqui entre nós, vive como Adolfo Magro, conhecido sinuqueiro e apontador de bicho da 314.
Mesmo sendo um dos maiores detetives das várias galáxias conhecidas, ou, talvez, por isso mesmo, Andro 15, ou Adolfo Magro, não aparenta ser mais do que um homem magro e comum. Eu fui com Etelvino no dia da contratação, pois os leitores sabem que eu me dou muito bem com nossos amigos mochileiros.
Adolfo Magro cofiou o fino bigode e disse que, em dois dias, traria as vacinas de volta, podiam preparar o clube e os enfermeiros. Etelvino não conversou mais e saímos em direção à 709, pro Beco do ET.
Meio desconfiado, perguntei ao Etelvino se não tinha perigo do detetive falhar, e ele riu até tossir e depois falou:

  • Vocês terráqueos têm até razão em desconfiar, pois não conhecem os métodos e o passado de Andro 15. Mas, espere até sábado e venha me encontrar. Você sempre quis conhecer o nosso clube… Pois chegou a sua hora!
    Ontem eu fui e me encantei com o modo de entrar no clube. Dentro do banheiro, ao passarmos pela cortina que levaria ao chuveiro, surge na parede em frente, o clube, com todas as suas instalações.
    Uma pequena fila indicava o local de vacinação e eu compreendi que Andro tinha conseguido. Aproveitei que ele vinha em nossa direção e o interpelei, perguntando como ele fizera para achar a vacina.
  • Vocês têm um escritor chamado Jorge Luís Borges que diz que o melhor lugar para esconder uma folha é na floresta e um livro numa biblioteca. Portanto, eu fui até o bar dos venusianos e fiquei de olho no recinto e nos pedidos de bebida. Notei uma garrafa azul, no alto da prateleira, que o barman limpava de vez em quando com carinho, mas não servia dela a ninguém. À noite, voltei lá e peguei a garrafa que, como imaginava, continha a vacina roubada. Deixei outra igualzinha no lugar, com rum Merino. Quando eles descobrirem vão poder beber o rum para afogar as mágoas. Afinal, eu não sou um mochileiro mau, disse, rindo.
    Gostei do cara e recomendo seus serviços, só não sei se ele trabalha para terráqueos, mas, se o fizer, é serviço de primeira.
    A propósito, Etelvino me disse que os venusianos caíram na real e estão chorando pela vacina, e que eles vão receber. Mas, primeiro, os mochileiros vão lhes pagar um bom sapo espacial e deixar que eles sofram um pouco. Coisa de extraterrestre. Eu não sei se nós agiríamos assim, ou agiríamos?

Vicente Sá
Ilustração de Guilherme Leão

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Fonte Segura: Central de Jornalismo

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