Silêncio sobre ‘rachadinhas’ prova que a luta nunca foi contra corrupção

Por Matheus Pichonelli/UOL
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Central de Jornalismo
17 de março de 2021

Por curiosidade, fui ao Twitter de um jornalista que, durante anos, foi comentarista de política da principal emissora do país — e hoje se destaca como porta-voz extraoficial do governo Bolsonaro. Lá, o antes aguerrido defensor da lisura e do combate à corrupção demonstrava indignação com uma decisão da Justiça de barrar tratamento precoce contra a covid-19 em Porto Alegre. Também parabenizava uma deputada bolsonarista investigada por espalhar fake news e chamada por ele de “minha representante”, pela vaga na CCJ na Câmara. Sobre o caso das rachadinhas, didaticamente radiografado pelo UOL naquele mesmo dia, deu nem um pio.

Outro patriota dublê de jornalista mostrou os dentes em sua única postagem no dia. Mas não sobre as investigações. “Quem está em lockdown mental não enxerga mesmo ninguém na rua”, filosofou.

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Outro ainda estava preocupado não com as contas e a matemática, mas com o português e o juridiquês castiço da decisão de Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal.

Já um comentarista que comparava mortes por covid ao número de pessoas engasgadas com a própria comida estava mobilizado demais pelo impeachment de Alexandre de Moraes, do STF, e com tempo de menos para falar da pauta anticorrupção.

Seu colega que castigaria a filha dependendo das circunstâncias em que ela fosse estuprada estava in-dig-na-do, mas era com o silêncio da grande imprensa a respeito da grande manifestação patriótica de domingo, em defesa de seu ídolo Jair Bolsonaro — uma mobilização que teve até buzinaço em frente a um hospital lotado de pacientes com covid.

Fico imaginando o que diriam os influencers de camisa verde-amarela se soubessem que alguma liderança do campo progressista (não precisa ser o Lula, tá?) havia sido citado em uma apuração que:

  • Mostrou que a ex-mulher do sujeito ficou com R$ 54 mil da conta de uma assessora parlamentar;
  • Que uma ex-chefe de gabinete do filho deputado pagava o aluguel do sobrinho;
  • Que assessores do gabinete do pai e de outro filho sacaram a maior parte dos salários (mais de R$ 1 milhão em duas casas legislativas) em dinheiro vivo, para supostamente dificultar o rastreamento das notas.

Às transações, que eram investigadas pelo Ministério Público antes de as provas serem anuladas pelo Superior Tribunal de Justiça, somam-se as notícias sobre funcionários que batiam ponto em Brasília enquanto trabalhavam como personal trainer no Rio ou vendendo açaí na praia. Somam-se também às andanças do ex-assessor, ex-amigo e ex-faz-tudo encontrado no sítio do advogado da família — e que, meses atrás, descreveu a investigação como “uma pica do tamanho de um cometa pra enterrar” no grupo. E ao fato de que o ex-faz-tudo era amigo e mantinha contato com um fugitivo que empregou a mãe e a esposa nos gabinetes da família antes de ser morto em uma troca de tiros com a polícia na Bahia.

Isso sem contar a mansão, em Brasília, para onde o primogênito se mudou. Um casarão que jamais teria conseguido pagar só com os salários de senador. (Seria ele, então, o verdadeiro dono da Friboi?)

Em outros tempos, as revelações teriam no mínimo constrangido aquele tio aposentado com PhD em Datena que de um dia para o outro botou a bermuda, o chinelo Rider e camisa amarela para sair às ruas combatendo o crime, se autointitulando “O Brasil”. Em 2018, o patriota que bota até bandeirinha na sacada — mas aparentemente despreza tudo o que é produzido em seu país — se converteu em uma multidão reunida por WhatsApp. Só que o inimigo agora é outro.

Este cidadão, empoderado e estimulado pelo jornalismo chapa-verde-amarela, trava hoje uma luta linguística em que suspeito que veste vermelho é sempre bandido, mas o suspeito que desdenha da morte e apoia tortura é “mito”.

Para ele, transparência e pedidos de apuração nos olhos de quem deu sentido para sua vida é pimenta. Qualquer exercício de ligar os pontos feito pelo jornalismo profissional é parte de uma grande conspiração com o vírus, a China, o governo de São Paulo, os tucanos, os petistas, os comunistas, os artistas, os adeptos da mamadeira com formatos estranhos, as viúvas da lei Rouanet e os ditadores do lockdown. Tudo para impedir que seu mito faça o que tem que fazer — sem as amarras do Congresso, do STF e do pacto federativo.

Quem quiser entender o fascínio que Bolsonaro provoca em quem não quer (e tem raiva de quem quer) entender os caminhos do dinheiro dos gabinetes em seu tempo de deputado precisa se desprender do argumento fajuto disfarçado de “combate à corrupção”.

Na polifonia de quem foi às ruas no domingo passado para demonstrar apoio ao capitão, era até difícil entender qual era a pauta, afinal. Mas ao fundo, era possível ouvir a voz de comando pipocar como tiro: “muita frescura”, “vamos parar de mimimi”, “vão chorar até quando?”, “entre nos hospitais e mande vídeos para a gente”, “não sou coveiro”, “sou Messias, mas não faço milagre”.

É estranho, mas compreensível que, no rescaldo da crise política detonada pela Lava Jato na segunda metade da década passada, alguém tenha depositado em um deputado com 30 anos de mandato e nenhum projeto de relevância no currículo as esperanças de renovação e respeito ao dinheiro público. É compreensível também que quem votou por esse viés esteja hoje decepcionado — e repense a decisão para 2022. Podem começar fazendo as contas do quanto foi gasto em cloroquina, viagem em busca do spray sagrado, estadia e salário de ministros e equipes incapazes de implementar um plano e conter o morticínio na pandemia.

Aos demais que já rasgaram a fantasia e ainda batem palma, resta ao menos admitir que a luta nunca foi contra a corrupção. Bolsonaro deu a eles apenas vazão à própria perversidade — e eles não estão dispostos a guardar os destroços de volta à caixa já aberta e escancarada.

Só isso explica que as carreatas e buzinaços em frente a hospitais no momento em que 280 mil compatriotas já perderam suas vidas numa pandemia minimizada desde os primeiros sintomas.

Para quem já pediu intervenção militar e declarou que “somos milhões de Cunhas”, ninguém poderá estranhar se, nas próximas manifestações a favor de tudo isso que está aí, aparecerem cartazes do tipo “Morreu foi pouco” ou “Rachadinha, sim; comunismo, não”.

Ocupadas por quem não liga para nada disso, as ruas são hoje o maior retrato da perversidade.

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Fonte Segura: Central de Jornalismo

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