O Canário que há em nós-Central de Jornalismo

Por Carlos Fernando Galvão, Geógrafo, Doutor em Ciências Sociais e Pós Doutor em Geografia Humana, cfgalvao@terra.com.br
18 de março de 2021

Turismo, em Português, ou “tourism”, em Inglês, é uma palavra originada do francês “tour”, e quer dizer algo como “dar uma volta”, que por sua vez se origina do termo latino “tornus”, ou seja, movimento ou volta, daí, em Português, outras palavras derivadas dessa linhagem filológica como contornar (dar a volta em alguma coisa) ou retornar (voltar ao ponto de origem). Palavras são expressões do que sentimos, designam ações que realizamos, mas como uma espécie de contraparte discursiva e constitutiva, também nos forjam. Aliás, a própria palavra “discurso” igualmente tem origem no latim e quer dizer “correr, percorrer”; um navio discursa sobre os oceanos, como discursamos sobre a vida, em alvoradas turísticas pelas existências humanas ao longo da História; discursamos por Geografias ao visitar novos lugares. Espaço e não só tempo, são vivências consumíveis, existencialmente.

O que define o que somos e fazemos, tanto individual quanto coletivamente, e também aquilo que diferencia um povo de outro é a cultura, que engendra e consolida seus hábitos e valores, os quais, afinal de contas, o identifica, diferenciando-o de outros povos. Cultura tem origem no termo latino “cultivare” e significa “fazer nascer alguma coisa”. Aquilo que somos e fazemos, socialmente, faz nascer no mundo, ao longo do tempo, nossos lugares, entendidos como expressões físicas de nossas existências – e lugar, geograficamente falando, é sinônimo de identidade. Mais do que estarmos em um lugar, somos, metafisicamente falando, por assim dizer, o próprio lugar, na medida em que, conforme definição do filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), espaço é mais do que um recipiente onde construímos coisas, como o entendia outro filósofo alemão, Immanuel Kant (1724-1804): espaço é uma relação de percepção e de troca, do ser para o mundo e deste, para aquele. Conhecer outros lugares, que não os nossos, é mergulhar no universo cultural do outro, fazendo-os interagir com o nosso universo e esse processo existencial é altamente enriquecedor em termos de experiências de vida.

Vivemos um período extremamente delicado, no mundo e no Brasil, de pandemia, de falta de amor à vida, de pouca estrutura social, de desemprego… O mundo humano não pode mais ser o que tem sido, desde há muito e até os dias atuais; o mundo pós pandemia tem que ser reconstruído. No tocante à geração de empregos, por exemplo, há setores econômicos que respondem rápido a estímulos, privados e governamentais; há, no mínimo, três: 1 – área da cultura, especialmente eventos musicais e teatrais; 2 – eventos esportivos e 3 – o turismo.

Viajar é ganhar o mundo, real e metaforicamente e quando se ganha o mundo, as dimensões existenciais, cognitivas e sensoriais se ampliam e se complexificam de tal forma que não retornam mais ao ponto de partida. No conto “Ideias de Canário”, de Machado de Assis (1839-1908), um canário falante, descoberto numa loja suja e maltratada qualquer, por Macedo, é ouvido por ele e só por ele. Macedo quer comprar o canário que, a princípio, não se mostra interessado em sair da loja e da sua jaula, que afirma ser seu mundo, mas Macedo o compra assim mesmo, dizendo que ele tinha que ver o céu e o Sol. Ao chegar em casa, Macedo estabelece muitas conversas com o canário e faz uma série de anotações para mostrar à comunidade científica. O canário, entretanto, um dia, foge e é procurado por um bom tempo. Certo dia, num parque, Macedo o encontra e lhe oferece voltar para casa e para a gaiola, para restabelecerem as conversas. Não obstante, o canário afirma que o mundo dele, agora, é o céu, com o Sol por cima.

Na perspectiva aqui adotada, baseada na bela história de Machado de Assis, o Turismo não é apenas um setor econômico, embora também o seja; turismo é mais do que viajar por aí, a esmo, para arejar a cabeça e o coração, não obstante seja essa, também, uma consequência direta de quem faz turismo – e ainda bem que podemos fazer isso (noves fora o momento pandêmico, ainda voltaremos a isso). Turismo é vida, na medida em que é através dele que podemos trocar experiências e belezas, conhecer novos lugares (novas identidades) e culturas variadas; turismo nos fazer viver Geografias mutantes pelas Histórias que, tal como belas naves, discursam pelas mentes e corações humanos que viajam, real e metafisicamente, pelo mundo.

Depois de fazer um “tour”, retornamos ao ponto de origem, mas diferentes de quando saímos dele. Eis a beleza das voltas que o mundo dá, e que nós damos, nele e por ele – daí a necessidade de o preservarmos e de nos preservarmos. Voemos como um canário machadeano!

Carlos Fernando Galvão, Geógrafo, Doutor em Ciências Sociais e Pós Doutor em Geografia Humana,

cfgalvao@terra.com.br

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