Ser menina numa cidade menina-Por Leiliane Rebouças

Central de Jornalismo
Por Leiliane Rebouças
21 de abril de 2021

José Aparecido de Oliveira é “o cara” ,
graças ao empenho dele que Brasília, a capital do nosso país que ontem fez 61 anos é um Patrimônio Cultural da Humanidade! Sempre me lembrarei dele com carinho e respeito.

Tive o privilégio de ouvi-lo contar sobre seus planos de inserir Brasília na lista dos patrimônios culturais da UNESCO. Era agosto de 1986, eu estava ali no gabinete do governador, sentada no colo da filha do presidente JK, Márcia Kubitschek, tomando coca-cola enquanto Aparecido me explicava os motivos que o levaram a querer que
Brasília recebesse o título da UNESCO.

Ele me disse que certa vez estava no Palácio do Governo de Minas Gerais e ouviu Afonso Arinos dizer que ” ele foi menino em uma cidade menina” e lamentava que se Belo Horizonte tivesse conservado suas características originais teria sido uma das cidades “Belle Époque” mais preservadas do país, quiçá do mundo!

E então, anos depois, ao ser indicado por José Sarney para governar Brasília lembrou-se de Afonso Arinos e isso serviu de sinete para preservar as características originais da capital do Brasil que desde sempre teve seu projeto ameaçado pela sanha dos especuladores imobiliários que queriam transformar os blocos de seis andares de Brasília em arranha-céus!

Apesar da minha pouca idade compreendi imediatamente a preocupação de José Aparecido, afinal a Vila Planalto, que eu estava representando naquele dia junto ao governo também era ameaçada de extinção devido a sanha dos especuladores imobiliários …

Já fazia mais de um ano que minha mãe me levava para as reuniões do GT Brasília, o grupo criado por Aluisio Magalhães e coordenado pela Briane Bicca que desde 1979 discutia o que deveria ser preservado nessa cidade tão jovem e modernista para as próximas gerações.

O GT Brasília usava uma sala dentro de uma casa de madeira no conjunto Fazendinha cedido pelas assistentes sociais do CEBEM. E os responsáveis pelo inventário da Vila Planalto nos orientavam sobre a importância de se preservar a memória e a pré-história de Brasília ou seja, as antigas fazendas do DF e os acampamentos pioneiros remanescentes da construção da nossa capital.

Eu não era uma criança comum, eu prestava atenção nas reuniões, nas conversas dos adultos, e queria participar dando “pitacos” em vez de brincar com as outras crianças. As meninas do GT, Yedinha Barbosa , Glorinha e Sandra Zarur me apelidaram de ” aprendiz de feiticeira”.

Nosso encontro no Buriti com Aparecido naquele dia tinha sido marcado para as 17 horas. Ocorreu um pequeno atraso porque ele estava recebendo a Márcia Kubitscheck (ela havia lançado candidatura para Deputada Federal e tentavam cassar sua inscrição , dai foi pedir orientação para o seu amigo mineiro). Dai, Márcia decidiu permanecer no gabinete e acompanhar nossa audiência que durou até ás 22 horas e terminou com uma agradável conversa com o Presidente José Sarney por telefone, para quem Aparecido ligou a fim de que o Presidente falasse comigo e se certificasse de que fui bem recebida como a representante dos pioneiros da Vila Planalto para chegarmos juntos a uma solução que garantisse a permanência da Vila.

Em 21 de abril de 1988, José Aparecido assinou os Decretos de Fixação dos Moradores da Vila Planalto e de tombamento da Vila transformando-a em um Patrimônio Histórico do Distrito Federal.

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Fonte Segura: Central de Jornalismo

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