Morreu esse e aqueles também! -Por Grace Maya

Para moralizar basta não compreender! Essa é a moral burguesa vigente. A hierarquia de valores, a hierarquia tão necessária à ordem, também está presente no valoração das mortes. Vi, nessa semana, pessoas declarem que choraram por horas a morte do comediante brasileiro, que não posso falar nada, porque nunca vi nenhum trabalho dele, mas independente da qualidade de seu trabalho, obviamente sua morte tem mais valor, gera um afeto superior e mais intenso que a milhões de mortes gerada pela maior hierarquia de todas, a hegemonia branca. Será que é tão difícil compreender isso ou podemos chamar essa falta de compreensão de cinismo?
Não é um tema menos importante, digo para quem me reclama que a vida tem que ser leve e quer assegurar o direito de seguir rindo de piadas banais. Te respondo, companheira, companheiro que quem tem o privilégio de uma vida onde se pode rir de comédias baratas, tem esse privilégio às custas de milhões de pessoas com uma existência completamente desgraçada e sem qualquer possibilidade de um momento sequer de alegria. Na mesma semana que a morte do brasileiro comediante comoveu a milhares de pessoas, morreram milhares de pessoas no mundo, e ao nosso lado começa uma nova movida de resistência muito mais comovedora e importante.
Em Colômbia, quem foi para as ruas enfrentar a morte não foi a burguesia intelectual, que tanto lamenta tudo e não faz nada, mas sim novas representações, que estão colocando corajosamente seus corpos na rua! São jovens de muitos tipos: mulheres, novas sexualidades, indígenas e negros. Esses grupos são os que não têm o privilégio de desfrutar de uma gargalhada banal em suas casas confortáveis, porque esses grupos a polícia mata, a política mata, os cidadãos de bem matam e essa é uma realidade não menos importante que a morte de um burguês branco.
Nós brasileiros podemos até gostar de Shakira, mas é demasiado nos preocupar com os povos latinos americano, afinal de contas, não nos sentimos latinos, não nos sentimos irmãos desses povos que estudamos em livros que estampavam suas caras pintadas e cabeças enfeitadas de cocás, como nossas fantasias de carnaval. A Shakira é loira e brilhante, para nós é uma americana, e mesmo que cante canções de denúncia, infelizmente não nos faz chorar a morte de nossos hermanitos.
A verdade é triste, a direita está forte não só no Brasil e Colômbia, mas no mundo todo ela volta e volta para matar! Em Espanha volta a extrema direita, o pior dos seguidores de Franco novamente no poder, em El salvador destituiram a suprema corte e o idiota do filho do messias disse que é assim que tem que fazer. Em Colômbia cai a cortina e vemos o espetáculo neoliberal, a polícia, que diferente dos filmes, não é legal e não tem coração, está bem armada e está exterminando os filhos de alguém. Essas mortes não fizeram ninguém chorar no Brasil e não geraram tantos posts como o tal do Gustavo, não é por nada, não é besteira, é a forma de pensamento neoliberal, a hierarquia liberal não é uma banalidade, ela mata.
A polícia diz que é legítima defesa, e mata com o poder outorgado por essa hierarquia, contra eles somente se pode lutar quando deixam cair seus corpos ao chão, como se já estivessem mortos, mas vivos o suficiente para seguir resistindo e apresentar um espetáculo emocionante de resistência. Mas a mídia não mostra isso, a mídia, a polícia e a política é a trindade mórbida do neoliberalismo. E quando se faz piadas sobre isso, a risada não é gostosa, é um riso que sai como lágrima e com vergonha, se questionando como é que isso pode ser engraçado ?
Assim, vemos que Colômbia é exemplo de um país que aderiu com tudo o neoliberalismo, o capitalismo e o american way of life. Não é difícil ver esses resultados já há alguns anos, aqui em Buenos Aires os colombianos são muitos, filhos de burgueses com grana, vêm estudar, porque lá tá caro. Assim, vemos que a vida lá não deve ser esse sonho americano que os brasileiros estão almejando cegamente. A realidade na Colômbia não é tão distante da brasileira, são muitas as causas, mas certamente há uma que mais chama atenção: a vontade de liberdade oferecida pelo capitalismo e a permanente violência repressora da força de polícia. No Brasil, com as milícias agora bem armadas, sem vergonha e sem medo de atuarem, matam não só Marielle, mas matam a esperança de um governo do povo e para o povo.
De resto, os impostos favorecem aos burgueses ricos e recaem sobre os burgueses pobres, enquanto seus pastores lavam a grana do tráfico com seus dízimos e armam as milícias para calarem a boca de quem os denuncia. A televisão ainda é a arma mais brutal que esteriliza as forças reacionárias, manipulação de informação e uma pitada de comédia banal é a receita para neutralizar. Essa comédia que agrada tanto é sim temerária, é no mínimo uma comédia mórbida, porque enquanto rimos fácil, pessoas morrem do lado de fora pedindo socorro.
O relato oficial é sempre cheio racismos, de clasismos, de machismos e de xenofobias. Os empresarios e políticos encerrados en su cuarentena se fazem de vítimas, com os braços cruzados e assitem ao genocídio tranquilos, sem que precisem de fornos ou litros de gás mortífero, hoje o holocausto vai de delivery.
Dizem que o vírus é domcrático e mata ricos e pobres igualmente! Não queridos irmãos, a morte sim é democrática, mas esse vírus é antes de tudo um tema político que visa uma limpeza social muito bem organizada e previamente planejada, e como em toda guerra se perde alguns soldados, mas no saldo final, a vitória de uma guerra não está nos números de mortos, que são apenas um túmulo dentre outros. A vitória é desde a criação da pólis dos mesmos vencedores de sempre, a vitória é do stutus quo.
O brasileiro com Bolsonaro encontrou um cristo pra expurgar por seus pecados, não é por nada que é chamado de messias, realmente veio trazer a terrível verdade de um povo, que outrora era considerado um povo de pessoas boas e ,e veio salvar a burguesia de sua famosa culpa. O brasileiro está acomodado, colocar a culpa em uma só pessoa é tranquilizador indeed, e assim, vamos seguir nossa vida egoísta, e parece que ainda vamos tomar uma boa dose de neoliberalismo no cu até nos darmos conta que precisamos levantar e ir para as ruas.
Nesse momento, o único movimento que incomoda bastante, ainda que perdidos e sem muita força, é o movimento feminista, que junto com outras sexualidades, leva junto também outros discursos que se levantam com mais força nesses tempos: os povos originários, os negros e a a questão do medio ambiente, ou seja, os subversivos são os que reividicam a multiplicidade, a vida, as infinitas possibilidades de escolhas que estão bem longe desse maniqueismo que prega a bíblia e seus seguidores! A resistência sempre parece uma minoria, mas sempre esteve presente, e a história nunca pode negá-las, os seguidores de Epicuro ainda vivem e estão entre nós e espero viver para ver a resistência me dar um pouco de alegria verdadeira, não a alegria de uma piada banal, mas a alegria de saber que nem tudo está perdido e que na raça humana sempre há uns que seguem vivos e fortes e dignos de louvor.
Boa semana para vocês!
Sigam vivos, se vacinem, alonguem, tomem água, leiam um livro…
Grace Maya
Buenos Aires, maio, 2021
Foto: Antonio Fernandez

Administrador

Fonte Segura: Central de Jornalismo

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