Milhares nas ruas, apesar da pandemia, provam força da repulsa a Bolsonaro

Por Reynaldo Azevedo/UOL
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Central de Jornalismo
02 de junho de 2021

Todos sabem que me opus a protestos nestes dias em razão da pandemia. É arriscado? É. Mas a história não se faz só de quereres. Em certa medida, é evidente, o antibolsonarismo deixou-se pautar por Bolsonaro. Que se note, no entanto: a esmagadora maioria dos que foram às ruas neste último sábado estava de máscara e levou uma pauta civilizadora, que expressa o consenso de quem adere à ciência e ao bom senso, apesar da óbvia aglomeração. Inexiste, assim, um empate moral, como a extrema direita está berrando nas redes sociais.

Fato: o presidente exibia um falso monopólio das ruas em razão do público irresponsável e negacionista que mobiliza. Como evidenciam as pesquisas, a maioria dos brasileiros, hoje, é crítica ao governo. E, pois, já o era antes dos protestos. O que se fez foi expressar essa verdade também na ocupação de espaços públicos.

A rua não era essencial para plasmar o sentimento antibolsonaro. Mas é claro que aqueles que se opõem ao presidente marcam um tento ao evidenciar que os antigovernistas podem organizar “protestos contra” bem maiores do que os “protestos a favor” — estes insuflados pelo próprio Bolsonaro. Mas é certo que os manifestantes de oposição terão de enfrentar críticas em face da terceira onda da doença que bate às portas. Que não venha. A primeira e a segunda já mataram mais de 461 mil pessoas.

“Muito bem, Reinaldo, então qual é a síntese?” Ela não é linear. Pode-se afirmar que:
1: o antibolsonarismo crescia sem manifestações de rua porque, em regra, os que se opõem ao presidente obedecem a restrições sanitárias;
2: opositores justa e prudentemente enclausurados contribuíam para alimentar a falsa impressão de que as ruas eram monopólio do governismo e do negacionismo;
3: não negacionistas foram protestar, apesar da resistência de muitos, e demonstraram o que já se sabia: são a maioria;
4: o antibolsonarismo, assim, evidencia superioridade numérica, mas vê esmaecido o seu exclusivismo moral no que respeita ao distanciamento social;
5: na plástica das ruas, a diferença essencial está no uso de máscara, que rechaçada pelos seguidores do presidente, e por ele próprio, até hoje ninguém sabe por quê;
6: na pauta, entre antibolsonarismo e bolsonarismo, há a distinção, com o perdão do clichê, entre a civilização e a barbárie;
7: demonstrado o potencial para concentrações gigantescas, a prioridade deve continuar a ser o combate à doença. E, definitivamente, as aglomerações não contribuem para isso, ainda que com o uso de máscaras.

PROTESTOS MITIGADOS
Notem que coisa curiosa: Bolsonaro fala até em recorrer aos militares para impedir que Estados e municípios adotem medidas de restrição de circulação. Contra a Constituição e o que já foi votado no Supremo, sustenta que só o governo federal pode fazê-lo — e, como o presidente deixa claro, todos devem retornar à normalidade, embora o sistema de Saúde ainda esteja em colapso. Ele é assim mesmo: irresponsável.

O que este sábado deixou claro? Se todos decidissem seguir a pregação do “Mito”, o país poderia assistir a alguns dos maiores protestos de sua história — e, no caso, contra o governo. Assim, é a resistência ao que prega o mandatário que o tem poupado de megamanifestações de repúdio.

Tanto é verdade que o antibolsonarismo se dividiu. O chamamento para o protesto deste sábado foi feito pelas frentes Povo sem Medo, Brasil Popular e Coalizão Negra por Direitos (que congregam dezenas de entidades). Partidos apoiaram, mas não estiveram na linha de frente da organização. A CUT e o MST, por exemplo, não convocaram sua militância, mas também não criticaram os atos. O PT nacional aderiu, mas o da Bahia estimulou o protesto virtual.

A oposição centrista e de direita — sim, existe — não estava nas ruas. E, mesmo entre aqueles mais à esquerda, houve às pencas os que preferiram manter o distanciamento social. Isso quer dizer, é evidente, que o potencial para ocupar as ruas contra Bolsonaro é muitas vezes superior àquele que se viu.

AGENDA
Os protestos tiveram uma agenda dispersa: a favor da vacina; em defesa da CPI; por um auxílio emergencial de R$ 600; por um governo sem Bolsonaro e sem Mourão; contra a violência policial (no caso do Rio) etc. Isso, em si, é um problema? Resposta: não! Afinal, nunca se pretendeu elaborar um programa de governo. O que se tinha e se tem é um conjunto de insatisfações que estavam reprimidas.

A adesão aos protestos, marcados com pouca antecedência, certamente surpreendeu até os organizadores. Como será no futuro próximo? Bolsonaro deve continuar a incentivar atos irresponsáveis — para ele, as pessoas “morrem sem sentir” e, afinal, “todo mundo morre um dia”…

Obviamente, não dá para entrar num campeonato de sandices. Mesmo correndo mais riscos do que seria desejável, os manifestantes deste sábado demonstraram que o repúdio ao governo é grande, como evidenciam as pesquisas. Mas cumpre estar atento: o governo pode estar vivendo o seu pior momento. Está combalido, mas tem instrumentos para reagir.

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Fonte Segura: Central de Jornalismo

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