Bolsonaro em dia de fúria contra a imprensa passa recibo do medo que sente

Bateu o desespero. A fúria

Jair Bolsonaro manda repórter calar a boca

Por Olga Curado Colunista do UOL
Compartilhado por
Central de Jornalismo
21 de Junho de 2021

O capitão está se sentindo encurralado, com medo. A linguagem não verbal, ao atacar de maneira despropositada e descontrolada a repórter que o entrevistava em Guaratinguetá, mostra que a tensão está subindo.

Algumas das características do medo são a oscilação do tom de voz e o movimento de cabeça como se estivesse desviando de um ataque. No Atlas das Emoções, de Paul Ekman, a irritabilidade aparece como ponto inicial de um processo que pode chegar à fúria. E, como ensina o pesquisador, a raiva está intimamente ligada ao medo. Aliás, a raiva muitas vezes oculta o medo.

Na escala das emoções, a raiva segue a trilha iniciada com a irritação para, no passo seguinte, expor frustração, exasperação, argumentação, amargor, retaliação e fúria. Um exemplo icônico é o filme Um dia de Fúria, de 1993. William Foster (Michael Douglas), um homem emocionalmente perturbado que perdeu seu emprego e vai ao encontro de Beth (Barbara Hershey), sua ex-mulher, e da filha, sem sequer reconhecer que o seu casamento já acabou há muito tempo. Em seu caminho, William vai eliminando quem cruza seu destino.

A raiva nas suas diversas intensidades também tem um papel: esconder o medo. Ainda lembrando o Atlas das Emoções de Paul Ekman, é possível ver como o medo se mostra, igualmente num crescente. Começa com apreensão, vai para o nervosismo, segue na ansiedade, e cresce mostrando temor, desespero, pânico, horror e terror.

No encontro com a repórter da TV Vanguarda, o capitão mostrou-se um clássico das expressões de medo e de raiva. Teve a solidariedade da deputada Carla Zambelli, que tinha os números de “investimentos” do governo federal na Santa Casa da cidade. E, enquanto ela falava, o capitão não conseguia esconder o desconforto, olhando para o alto, movendo lateralmente o corpo, na expectativa de que seria em algum momento golpeado.

Quando retoma a palavra, mesmo anunciando facilidades para o financiamento de casas a militares e agentes de segurança – tem dificuldade em manter o olhar numa direção firme. A postura desequilibrada antecipa o comportamento incontrolável, dominado pelo sentimento de medo, que aparece como raiva, diante da imprensa. É mais forte do que as suas habilidades de autocontrole. Calou fundo a cobertura das manifestações contra ele no final de semana.

Tomou a iniciativa de se defender, informando à Rede Globo que estava usando um “capacete de balística à prova de 762”, no seu passeio de moto em São Paulo.

Uma das características do medo é justamente essa de ir para a boca do lobo. É uma contrafobia. Responde a uma situação, diante da qual se sente atemorizado, indo para o ataque, mesmo quando não há ameaça no momento. Provoca a situação de risco de tanto medo. Parece paradoxal, mas é uma maneira desesperada de lidar com o próprio pavor, a fantasia de que será atacado. Falta de autocontrole. Vai pra cima! Mas mantém o discurso da vitimização: “sou o alvo de canalhas do Brasil”.

No descontrole, sobra até para o próprio séquito, para o qual esbraveja pedindo silêncio. A síndrome do “ninguém me escuta”, “ninguém me compreende” e “ninguém dá bola para mim”. Uma vítima.

Mas insiste no conselho negacionista: “se você não quiser usar máscara, não use”, diz para a jornalista, depois de ter sido lembrado de que a multa que recebeu não foi por causa de capacete, mas por não usar máscara. Ficar acima da lei. O desejo dos tiranetes.

E segue na catilinária negacionista. O tratamento precoce teria salvado a vida do capitão, segundo disse, “e de mais 200 pessoas no meu prédio”. Não explicou que prédio, já que mora no Palácio da Alvorada… e invoca conversas reservadas com jornalistas que também se dizem adeptos do seu tratamento precoce.

Tenta negociar: “parem de falar no assunto”. Sim medo, desespero. E tira a máscara. Na provocação de quem se sente encurralado, num dia de fúria. Impropérios, impropérios, desequilíbrio. E a solidária deputada Zambelli dá apoio emocional ao capitão e também tira a máscara.

Foi em Guaratinguetá. Depois do final de semana em que a tragédia brasileira contou mais de 500 mil mortos, quando milhares de pessoas foram às ruas em todo o país, pedindo vacina, pedindo auxílio emergencial e pedindo que o capitão vá para casa, para o prédio onde “mais de 200 pessoas” se curaram da covid -19 tomando cloroquina, ivermectina.

Enquanto o capitão se enfurece com a imprensa, o país chora o luto de mais de 500 mil pessoas mortas pelos desvarios de um governo que não reconhece a dor de enterrar brasileiros e brasileiras que poderiam estar vivos.

O capitão não aprende sobre a importância da vida. Nem sobre a dor da morte. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Administrador

Fonte Segura: Central de Jornalismo

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *