Ateu, graças à Deus – por Carlos Fernando Galvão

Central de Jornalismo
Por Carlos Fernando Galvão
14 de agosto de 2021
Ilustração: Eugênio de Proença ‘Sigaud’

Ateu, do grego “atheos” é que aquele que nega a existência de divindades, o que não nos autoriza a concluirmos que não crê em nada que não seja transcendental, a despeito do que entende o senso comum. A imanência, termo derivado do latim (“in” e “manere”), é o que há de divino e imortal em nós, algo como a famosa “centelha divina”. Em contrapartida a transcendência, inicialmente sinônimo de imanência e, portanto, entendida como uma forma de relação entre o mundano e o divino, sendo este um ser além das fronteiras do humano, assumiu, na filosofia moderna, o significado de ser aquilo ou aquele que transita do que é comum para algo maior e mais complexo.
Estar diante de um ateu não autoriza a que ninguém diga que ele é um descrente completo, um cético incorrigível: ateu é aquele que nega o divino, mas não, obrigatoriamente, o transcendente, se apreendido do ponto de vista filosófico aqui mencionado. O ateu tem as suas crenças, só que não envolvem imanências divinas, mas a secularidade e suas idiossincrasias mundanas, por assim dizer. O ser humano, para o ateu, pode transcender-se, mas na forma e no conteúdo relativos à vida humana. Exemplo dessa percepção de mundo é o Existencialismo do filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980) e sua ideia de que a existência precede a essência e que esta é construída no dia a dia, no posicionamento transcendente que o ser realiza, assumindo uma de suas várias possibilidades já que, como dizia Sartre, o ser é livre para ser o que quiser. Liberdade, eis um dos fundamentos da existência. Tal como expresso no título do livro de Milan Kundera “A insustentável leveza do ser”, nascer é um trauma, viver, no dizer de Guimarães Rosa, é perigoso, e viver feliz e dignamente e quase um milagre, mas só consegue aquele que consegue transcender-se em si mesmo e para si mesmo, em um ser diferente e, claro, melhor, do que o que originou a forma transcendente. A liberdade torna o ser mais leve (ou deveria), mas o medo de ser livre o torna (quase) imóvel (em muitos casos e momentos). Nem todos os ateus crêem nisso, mas alguns acreditam – e são ateus!
Fiz essas reflexões ao ler um artigo de Luiz Felipe Pondé intitulado “Budista Light”, para a Folha de S. Paulo, de 14 de dezembro de 2009. Um artigo instigante, como normalmente são os artigos desse filósofo, diga-se de passagem. E quando digo instigante o faço pensando no que concordo com ele e no que não concordo, afinal, nada melhor para nos levar à transcendência do que um bom e afetuoso debate com pessoas inteligentes, não é?
Pondé afirma coisas como: “desculpe-me, ateísmo é coisa banal (…) O ateísmo é óbvio (…) Ateísmo não choca mais ninguém, pelo menos quem já leu uns três livros sérios na vida (…) Ser ou não um ateu não diz nada acerca de como a pessoa se comporta com os outros… existem canalhas de ambos os lados do muro”. Começo pelo fim, concordando plenamente com o professor, ou seja, existem ateus canalhas e ateus bondosos e honestos e o mesmo vale para quem tem um sentimento espiritualista. Entretanto, não concordo quando Pondé diz que ateísmo é coisa banal e óbvia, quando nada mais, porque pensar e sentir algo radicalmente contrário ao que a maioria esmagadora pensa e sente não é nada banal, e o óbvio é seguir a multidão e não a ela se opor e defender os seus pontos de vista com transparência. Também não concordo com Pondé quando diz que “o ateísmo não choca mais ninguém (pelo menos quem já leu uns três livros sérios na vida)”. Em primeiro lugar porque dizer que o ateu quer chocar é o mesmo que dizer que japonês é tudo igual! Pode valer como piada, mas é uma ideia que não corresponde à realidade, pois despreza as diferenças individuais. Nem todo ateu quer chocar os outros se dizendo ateu; vários ateus querem, apenas, ser eles mesmos e ter o seu sentimento respeitado. Em segundo lugar porque, escrito como foi, que “quem já leu uns três livros sérios na vida”, pode dar a entender que livro sério é só aquele que, lido de um modo correto (Existe isso? Modo correto e padronizado de ler e interpretar um livro?) leva às mesmas conclusões de Pondé. Tenho certeza de que não foi isso o que o professor quis dizer, mas a construção oracional pode levar a essa conclusão semântica.
Mais à frente, no artigo, Pondé diz que “poucos ateus não são descendentes de uma criança infeliz e revoltada (…) A prova disse é que o ateus gostam de falar mal da igreja” ou acham que Deus é “malvado” e fecha o parágrafo e a idéia afirmando que “se você é assim e tem orgulho de ser ateu, você é um rancoroso”. Ora, novamente, parece que todos os ateus são iguais, farinhas do mesmo saco. Conheço ateus que tiveram infâncias felizes e são muito bem humorados e conheço crentes na imanência bastante mau humorados e que estão sempre de mal com a vida. É a ideia dos canalhas dos dois lados do muro, que o próprio Pondé, acertadamente, lembrou, logo no início do seu artigo. Conheço ateus que admiram as religiões, não por serem crentes em suas imanências, seria contraditório, mas por ver nas mesmas a beleza da diversidade e – por que não? – bondade humana; eles percebem, de modo diverso, que podemos transcender nesta vida, e não, necessariamente, em outra.
Por fim, existem aquelas pessoas que não negam, peremptoriamente, a existência do divino, mas questionam, com sinceridade e carinho, o fato de que possam haver forças na natureza para as quais, de existência intangível inquestionável, possamos rezar, pois seriam forças conscientes. De outro lado, existem pessoas que pensam que existir ou não uma centelha divina em nós, mesmo não acreditando muito nisso, será bom, se for verdade, mas que acham que existem tantas coisas a se aproveitar nesta vida mundana, que os prazeres da vida espiritual, caso existam, serão aproveitados quando nela estivermos. São pessoas que acham que há tantos problemas nesta vida secular (mundana, por que não?) a serem corrigidos, que não se incomodam com questões dessa, suposta ou real, outra vida. Alguns dirão que o que nos têm faltado, justamente, é a espiritualidade imanente para que resolvamos nossos problemas, mas as pessoas que pensam do modo como exposto neste parágrafo, podem argumentar que mais importante do que dizer-se ou não um espiritualista, um religioso, é o amor e a solidariedade que sentem e praticam, no seu dia a dia; é o carinho dedicado à vida, aos outros, e ao mundo e isso pode ser sentido e praticado por crentes e ateus.
A diversidade humana é por demais complexa e bonita para ser reduzida a maniqueísmos alienantes e castradores do que há de melhor em nós: o sentimento de que viver é muito bom e que só com muito carinho, afeto e respeito, numa palavra, amor, poderemos alcançar o objetivo maior que é o de que todos merecem e devem viver bem e felizes, crentes e ateus.

Carlos Fernando Galvão, Geógrafo, Doutor em Ciências Sociais e Pós Doutor em Geografia Humana, cfgalvao@terra.com.br

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