Diário da Quarentena-Compromisso para o carnaval 2022

Por Caco Schmitt

Jornalista, roteirista e diretor. Trabalhou na TV Cultura/SP como diretor e chefe da pauta do jornalismo; diretor na Agência Carta Maior/SP e na Produtora Argumento/SP. Editor de texto no Fantástico, TV Globo/SP. Repórter em vários jornais de Porto Alegre, São Paulo e Brasília.

Dia 336

Assumo desde já um compromisso movido a ressaca de quarta-feira de cinzas. Não, não pulei carnaval; sim: fiquei em casa, mestre-sala do bloco Alone Man. Mas prometo que, em 2022, nesta mesma hora, na primeira quarta-feira de cinzas pós-covid, flutuarei nas ladeiras de Olinda com o Batata, encerrando o carnaval mais bêbado que nunca antes na história desse país alguém o foi! Com certeza, partirei de Porto Alegre, sem dormir, é claro, depois de abrir os trabalhos na Cidade Baixa, aglomerado no cortejo do Bloco da Laje, quem sabe até liderando algumas das belas e divertidas apresentações performáticas. Sexta-feira, 13 ou não, sempre é um bom dia pra cair na sarjeta!

No sábado, uma dúvida: Floripa ou Sampa, onde morei por quase uma década? Floripa. Acredito que para fazer algo que ainda não fui capaz. Não por preconceito, mas sim por falta de jeito, ou timidez, nunca me vesti de mulher e saí pelas ruas do centro da ilha. Mas desta vez prometo que até ousarei romper a timidez e assumir a tradição e, sem dormir, vou passar o sábado de Carnaval vestido de mulher e invadir o centro de Florianópolis no famoso Bloco dos Sujos. A Praça XV de Novembro vai ser pequena… ai, papai! Lá estarei recepcionando, com um leque de rosas,os demais cortejos em suas alegres evoluções, especialmente o Sou + Eu e o Pauta Que Pariu, afinal sou jornalista! Com um detalhe, já que é pra derrubar preconceitos, vou me banhar em glitter e percorrer todas as ruas do centro feito louco!. Quem me encontrar está autorizado a me juntar e me jogar na poltrona do voo rumo ao Rio… Dessa vez, por conta da agenda apertada, não verei o sol nascer na sonífera ilha, caído nas areias e com as ondas lambendo meu rosto com ares de Santinho.

No Rio já chego cambaleando de emoção! Meu terceiro dia de folia tem que partir de uma parada no Amarelinho (se ainda existir), onde muitas vezes me senti carioca com amigos jornalistas do valente e escrachado jornal Repórter, do Tim e do Chiquito, ou da sucursal de A Gazeta Mercantil, ali perto na Presidente Vargas, do velho e saudoso Riomar Trindade e nossos grandiosos fins de noite no Largo do Machado e depois no Lamas. Uma subida no Largo do Curvelo, Santa Teresa, onde morei por uns tempos. E, claro, a Banda de Ipanema. Essa banda foi um Rio que passou na minha vida em 1972, quando tive meu primeiro contato. Ela surgiu em 1964 e oito anos depois lá estava eu junto, comemorando a vida sem pandemia, a vida com alegria, apenas comemorando a vida… como ela é!

Gente, não sei como, na segunda acordarei com a aeromoça pedindo pra apertar o cinto e ficar ainda mais quieto do que já estava. Não me preocuparei em saber quem me colocou no avião, afinal, o Pelô me aguarda! Minha primeira segunda-pós-pandemia é pra pegar meu amigo Magrão, encher a mochila de alguns teores alcoólicos e fazer o circuito até a Barra, cair nas areias e ver o sol da terça queimar o rosto e dizer: “Lá, Eu!” Segue o jogo que ainda tem mais. Ai, papai! O resto que acontecerá em Salvador a gente omitt porque no fim do dia já estarei voando para um lugar especial e cantarei com o ar que me restar: “Voltei, Recife, foi a saudade que me trouxe pelo braço… Eu quero ver novamente: vassoura na rua, abafando, tomar umas e outras e cair no passo!” Vê se eu posso… que felicidade!

Ai, na quarta-feira de cinzas, nas ladeiras de Olinda (não me pergunte como cheguei e como conseguirei reunir energias para partir cedo da manhã), vou com o bloco. Posso perder a largada na ladeira da Sé, ou Rua do Bonfim. Quem sabe eu pego o retorno pelo bairro do Carmo. Não sei se terei fôlego, mas vou me arrastando, procurando com os apurados ouvidos os sons da orquestra de frevo. Se o som não bastar, com meus olhos desfocados avistarei, ao longe, o boneco gigante do falecido Batata, nobre garçom que idealizou o bloco. E, quando o silêncio dos instrumentos chocar a alma, já sem energia, vou apenas fechar os olhos e desligar onde estiver, com quem estiver, e viver esse momento mágico!
PS: Existe uma única condicionante para materializar essa aventura virtual: estar vivo! Fantasia de jacaré é opcional!

Administrador

Fonte Segura: Central de Jornalismo

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