Crônica S/A-A estrada encantada-Por Vicente Sá

Central de Jornalismo
02 de maio de 2021

A Estrada encantada

Essa coisa de mudarmos nosso comportamento por conta da pandemia, do isolamento, muitas vezes acaba afetando nosso modo de pensar e agir.
E eu mesmo estou me sentindo meio diferente, pensando e fazendo coisas de que não me imaginava capaz. Vejam o caso dos santos:
Semana passada acordei, um dia, meio nublado, qual o tempo e com uma vontade crescente de sair a procurar um santo para me aconselhar. Às vezes, na minha solidão, eu fico a imaginar encontros com São Francisco, ou Santo Agostinho e eles me aconselhando a encarar os problemas triviais da vida de um não santo, como eu.
Assim, sai de manhã cedo, sem avisar à companheira pra onde ia, já que também não atinava, e busquei uma estrada de terra, pois é sabido que os santos adoram caminhar por estradas de terra e detestam as de asfalto.
Desci no caminho que leva à cachoeira do Urubu, mas sabendo que nunca lá chegaria, já que a estrada havia se transformado em função da minha busca. Tinha se encantado. Os leitores mais aprofundados em encantamentos sabem que as estradas quando estão encantadas, tornam-se mais bonitas e interagem muito mais com os caminhantes sortudos que por ela passam. Assim, caminhei na manhã ouvindo conversas de passarinhos, assistindo balés de borboletas em coreografias que só elas conseguem fazer, dança de brisas e galhos e até pequenos redemoinhos com Sacizinhos risonhos dentro.
A caminhada estava tão boa que até me esqueci da razão de tê-la começado. Foi quando avistei, após uma curva, dois homens a entabular uma conversar à sombra de um pequizeiro.
Tentei reconhecer que santos eram eles, mas é também sabido que eles se esforçam bem para não serem reconhecidos logo de cara e tendem a parecer homens comuns. Na falta de algum bom assunto, perguntei a eles se o caminho ainda levava à cachoeira do Urubu e eles riram alegres, achando o nome da cachoeira engraçado. O mais magro, que deveria ser São Francisco, comentou com o outro:

  • Tai uma boa coisa para refrescar a vida dos pobres urubus, uma cachoeira onde eles pudessem se banhar sem serem enxotados.
    O outro, que tinha um cajado na mão, começou a caminhar nos convidando a acompanhá-lo e falou:
  • Mas eu sinto que não é esta cachoeira o que você procura, e já que estamos juntos nessa estrada encantada, por que não falarmos do que te preocupa? Talvez nós dois possamos ajudá-lo.
  • Contei-lhes que o mundo passava por uma pandemia e que o isolamento de mais de ano estava me afetando, um pouco, e eu andava com muita vontade de rever os amigos, os lugares que frequentava, fazer coisas simples que antes fazia e nem dava tanto valor, como trocar um dedo de prosa numa esquina tomando um café.
    Mal falei e uma pequena bodega de madeira surgiu na curva e um homem atrás do balcão nos gritou que acabara de fazer um café e tinha também pão de queijo, que sua mulher preparara.
    O do cajado se adiantou e perguntou se podíamos tomar um lanche fiado, já que nós estávamos sem dinheiro. O bodegueiro, que usava um chapéu de palha e parecia bem-humorado, propôs trocar o lanche pelo cajado e depois de algum tempo de negociação, onde foi incluída mais uma porção de pão de queijo para viagem, encostamos no balcão de madeira e tomamos um saboroso lanche.
    Seguimos, os três, caminhando como bons companheiros a lembrar comidas de nossa infância e os modos de preparo, além de alguns furtos ocasionais dessas guloseimas. O mais magro, ao chegar a uma encruzilhada, parou e falou:
  • Vicente, aqui nos despedimos. Esperamos que tenha encontrado o que procurava. Nós, que somos agraciados com a obrigação de andarmos sempre por estradas encantadas e encontramos pessoas a procurar respostas, gostamos muito da sua companhia e, é claro, do lanche. Sempre que precisar trocar um dedo de prosa, venha por esta estrada, é provável que nos encontremos. A propósito, você que é amigo da Lucina, a cantora, diga a ela que adoramos a interpretação de Bom Começo, do Roberto Mendes e do Capinam. E o senhor do Bom Fim também. Até.
    E entraram mato adentro, sumindo em seguida. Fiquei só com o canto dos pássaros e mais uns três pães de queijo num saquinho. Acho que para provar que eu não havia sonhado. No caminho de volta, não achei mais a bodega e, logo, já era meio dia e, com sol na cabeça, cheguei em casa.
    Lúcia adorou os pães de queijo e disse que lembravam os de sua infância, que ela comprava numa bodegazinha, em Manaus, cujo dono usava um chapéu de palha e adorava fazer escambos.
    Não cometei nada, afinal, o que acontece nas estradas encantadas a elas pertence. Nós só tiramos o prazer e a lição.
    Vicente Sá
    Ilustração de Guilherme Leão

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