Crônica S/A: O quinto elemento-Por Vicente Sá

O quinto elemento

Por Vicente Sá

Algumas vezes a vida trabalha de forma silenciosa ou pelo menos não perceptível e, quando atentamos, a coisa à nossa volta mudou. Não sei se é o caso deste desgoverno que chegou e vem desmontando o Brasil e o tornando uma terra sem lei e arrasada, mas é o caso do quinto elemento, esta história que conto pra vocês.
Onde moro, até um pouco tempo atrás, eu podia fazer algumas coisas que gosto muito: ouvir a conversa das galinhas, o canto do galo e acompanhar com os olhos os pintinhos a seguir sua mãe, piando e aprendendo a ciscar. É aí que a vida começa a mexer seu tear. Um cachorro que havia sido adotado foi devolvido recentemente e juntou-se aos quatros que já habitavam a casa. O quinto elemento, como o chamamos a princípio, se mostrou um especialista em fuga de todas as espécies, desde corrente até portas e canil. Como um verdadeiro escapista, o cachorrinho logo ganhou de seus irmãos o apelido de Houdini, mas não é disso que trata a crônica, sim do que vem a seguir.
Em suas escapadas e fugas pelo mundo, Houdini de alguma forma aprendera rudimentos da língua humana e um dia ouviu sua nova dona reclamando na cozinha: – Essas galinhas só comem milho e quase não botam ovo. Vicente deixou a porta aberta e elas invadiram minha horta e quase destroem tudo. Estou louca para me livrar delas.
É claro que era só um desabafo, pois a Lúcia adora as galinhas, mas Houdini levou ao pé da letra o que ouviu e convenceu seus irmãos a atacarem sistematicamente todos os galináceos da chácara, causando inclusive algumas mortes e provocando pânico geral.
Num piscar de olhos me vi sem galinhas na chácara. Jandir, o galo mais novo, mudou seu nome para Flor de Lotus e levou seis galinhas para morar com ele em um terreno baldio a uns cem metros da chácara. Agora vivem de comer umas ervas que dão barato e da caridade das poucas pessoas que passam por lá. Eu inclusive, de dois em dois dias, levo arroz pegado que eles adoram comer na hora do laricão.
Dizem que à noite ele e suas galinhas discípulas fazem umas orações em galinês para uma deusa ave ou algo assim. Eu nunca vi, mas pode bem ser, Jandir sempre foi muito criativo.
Já o Alfredo, o galo mais antigo da casa, pegou a Dolores e mais sete ou oito amigas dela e se mudou para a chácara do meu vizinho Carlos. Lá foi recebido como exilado político ameaçado de morte e vive de cabeça erguida e cheio de pompa entre as muitas aves que o olham encantadas. Aos finais das tardes ele chega até a cerca e faz um discurso anunciado para breve sua volta triunfal e a prisão dos cachorros fascistas.
Fui lá conversar com ele outro dia e reconheci minha culpa, afinal não tenho ajudado na compra do milho. Falei que a vida de escritor é complicada, os livros estão vendendo pouco e quase não há apresentações e palestras por conta da pandemia.
Carlos, o vizinho, ao me ver conversar com meus galináceos, se aproximou e me garantiu a estadia deles por lá por quanto tempo fosse necessário e aconselhou a construir um galinheiro. – Eu tive este problema há algum tempo. Você faz um galinheiro bem fechado e vai soltando as galinhas aos poucos e acompanhando com uma bengala para assustar os cachorros, logo elas e eles se acostumam e tudo volta ao normal. Como foi aqui em casa, disse ele.
Carlos se foi e Alfredo se empolgou com a ideia. Quanto à falta de dinheiro, ele sugeriu uma campanha on line e deu até o mote: “Não tenha pena de seu dinheiro, ajude a construir o galinheiro”. Dolores sugeriu uma campanha para vender mais livros e comprar madeira para a construção e eu achei a ideia boa. Antes de me despedir, uma galinha mais nova, autorizada pela Dolores, se aproximou da cerca com um pedaço de madeira no bico e o colocou aos meus pés. Depois disse nervosa em seu cacarejo, mas com um brilho de amor juvenil no olhar, que aquele era o símbolo da pedra fundamental do novo galinheiro e do novo tempo que se anunciava. E fechou o discurso com uma frase que me emocionou e fez pensar: o livro é o ovo do saber.
Por isso que eu falei no começo da crônica que a vida mexe seu tear e nos envolve de uma forma que nem percebemos.
Então a campanha está lançada e quem quiser e puder ajudar Alfredo, Dolores e as outras aves exiladas, entre in box e peça o livro. Uma recomendação da Dolores: Se você já tiver lido, compre para um amigo ou doe a uma biblioteca. Bom domingo.

Vicente Sá
Ilustração Guilherme leão

Administrador

Fonte Segura: Central de Jornalismo

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