PF devassa a máquina do ódio

Inquérito aponta que filhos do presidente articularam esquema paralelo de comunicação para promover atos antidemocráticos, mas PGR quer parar investigação

Por Germano Oliveira
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Central de Jornalismo
14 de junho de 2021
Foto:Pedro Ladeira

MENTOR: Eduardo Bolsonaro articulou núcleo de comunicação ilegal

O deputado Eduardo, o filho 03 do presidente, é considerado um dos responsáveis pelo aparelhamento de um esquema que incluía o uso de blogs e perfis falsos nas mídias sociais e, sobretudo, na estruturação de um projeto encabeçado pelo blogueiro Allan dos Santos, dono do site Terça Livre, para dar suporte à disseminação de seus projetos antidemocráticos. Segundo o inquérito, o 03 era o encarregado de “abrir as portas” no governo para Allan, que usava recursos públicos da Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom) para viabilizar seus projetos. Entre outras coisas, seus canais de comunicação objetivavam “tocar terror” nas manifestações favoráveis a Bolsonaro como as realizadas na porta do QG do Exército em junho do ano passado, momento em que o País viveu um período conturbado com ameaças às instituições democráticas e que culminaram até mesmo com o cerco ao STF por militantes bolsonaristas. O grupo coordenado por Eduardo se reunia semanalmente na casa de Allan, no Lago Sul de Brasília, para traçar estratégias de ação para dar força ao movimento. Entre outras coisas, idealizavam montar uma TV e alugar uma rádio para propagar as teses de ultradireita.

FUGA Allan dos Santos mudou-se para os EUA: medo da cadeia

As investigações da Polícia Federal sobre os atos antidemocráticos, desenvolvidas desde abril do ano passado sob o comando do ministro Alexandre de Moraes, do STF, revelaram que os bolsonaristas articulavam a implantação de um sistema de comunicação paralelo ao oficial do governo, com a participação direta dos filhos do presidente, especialmente Eduardo e Carlos Bolsonaro, e de outros 10 parlamentares ligados ao clã, para divulgar suas teses golpistas. O relatório sobre o caso, elaborado pela delegada federal Denisse Dias Rosas Ribeiro em dezembro de 2020, e que foi tornado público esta semana por meio da suspensão do sigilo no processo determinada por Moraes, detalha uma grande devassa da PF contra a máquina de ódio montada pelos aliados de Bolsonaro em meados do ano passado, quando foram realizadas ações para a desestabilização das instituições democráticas, com apelos para a volta da ditadura militar e pedidos pelo fechamento do Congresso e do STF.

PULSO FORTE Alexandre de Moraes desarticulou os grupos golpistas

O deputado Eduardo, o filho 03 do presidente, é considerado um dos responsáveis pelo aparelhamento de um esquema que incluía o uso de blogs e perfis falsos nas mídias sociais e, sobretudo, na estruturação de um projeto encabeçado pelo blogueiro Allan dos Santos, dono do site Terça Livre, para dar suporte à disseminação de seus projetos antidemocráticos. Segundo o inquérito, o 03 era o encarregado de “abrir as portas” no governo para Allan, que usava recursos públicos da Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom) para viabilizar seus projetos. Entre outras coisas, seus canais de comunicação objetivavam “tocar terror” nas manifestações favoráveis a Bolsonaro como as realizadas na porta do QG do Exército em junho do ano passado, momento em que o País viveu um período conturbado com ameaças às instituições democráticas e que culminaram até mesmo com o cerco ao STF por militantes bolsonaristas. O grupo coordenado por Eduardo se reunia semanalmente na casa de Allan, no Lago Sul de Brasília, para traçar estratégias de ação para dar força ao movimento. Entre outras coisas, idealizavam montar uma TV e alugar uma rádio para propagar as teses de ultradireita.

ISTOÉ teve acesso à íntegra das 154 páginas do relatório da PF, permeado por dezenas depoimentos dos suspeitos, inclusive os filhos do presidente, que traz fatos gravíssimos, com base, inclusive, na quebra de sigilos bancário, fiscal, telefônico e telemático, além de buscas e apreensões de documentos nas casas de acusados. Apesar das evidências de crimes apontadas pela polícia, como lavagem de dinheiro e recebimento de valores de forma irregular vindos até mesmo do exterior, a Procuradoria-Geral da República (PGR), sob direção de Augusto Aras, aliado do presidente, mandou arquivar o inquérito na última sexta-feira, 4, alegando que as apurações não foram conclusivas sobre a participação dos parlamentares bolsonaritas. O ministro Alexandre de Moraes pode autorizar, nos próximos dias, que as investigações tenham prosseguimento, conforme deseja a PF. Afinal, o que a PGR quer esconder?

De acordo com a quebra dos sigilos telemáticos de Allan dos Santos, o 03 aparece como “a pessoa que iria abrir portas para montar algo que pudesse fazer frente à CNN Brasil”, a partir da estrutura usada pelo site Terça Livre em suas transmissões no YouTube. Eduardo e Allan foram pegos conversando sobre a possibilidade de o empresário Luciano Hang, da Havan, ser um dos patrocinadores dos programas do canal. Em mensagens no grupo de WhatsApp do qual o filho do presidente faz parte, Allan descreve como seria o “projeto da emissora de TV”. Ele diz ter conversado com Gustavo Franceschi, da TV Século 21, de Brasília, que participaria da iniciativa, revelando também conversas nesse sentido com Fábio Wajngarten, que era o chefe da Secom, na tentativa de usar recursos públicos para colocar a emissora de pé. Essa iniciativa, no entanto, não prosperou, mas o grupo ainda não desistiu do projeto, segundo a PF.

Allan explica como Eduardo Bolsonaro poderia ajudá-lo a obter recursos da Secom para o financiamento de vários conteúdos nos seus canais, como um programa infantil, um documentário (Brasil paralelo), programa de rádio e programa de entrevistas. Allan diz que Eduardo teria intermediado “contatos com Floriano Amorim”, que era chefe do setor de comunicação do governo antes da chegada de Wajngarten ao cargo, “para a solução de demandas na Secom”. A suspeita da PF é sobre o possível direcionamento de verbas de publicidade do governo para financiar páginas na internet dedicadas à promoção das manifestações antidemocráticas. No inquérito, Allan diz a Eduardo que “a Julia (Zanatta) precisa assumir a Secretaria de Radiodifusão” para que tivessem maior acesso aos recursos do governo, ressalvando, porém, que “ainda assim, precisamos da Secom para implementar a ação que desenhamos”.

Em outra frente, a PF apurou que Eduardo Bolsonaro acertava com o empresário e ativista de direita Otávio Fahkoury, financiador do canal de notícias “Crítica Nacional”, entendimentos para a montagem de uma emissora de rádio em São Paulo com o objetivo de difundir as teses golpistas. Fahkoury disse em depoimento à PF que envolveu o filho do presidente na estruturação da rádio por ele ter contatos com o missionário RR Soares, líder da Igreja Internacional da Graça de Deus, proprietário de inúmeras estações de rádio e que poderia ceder alguma delas para a concretização do projeto. À PF, porém, Fahkoury negou que sua intenção fosse a de divulgar “conteúdos falsos ou contrários à ordem política e social” ou que “incitasse as Forças Armadas contra as instituições”, de acordo com as suspeitas apontadas pelos policiais. O aluguel da rádio, segundo a PF, continua em “fase de planejamento”. Com Fahkoury, a PF apreendeu três notas fiscais no valor de R$ 53 mil por serviços de gráfica para a campanha de Bolsonaro em 2018, pagos pelo empresário e que não constam na prestação de contas do então candidato a presidente. Isso pode configurar crime eleitoral com sanções à chapa que elegeu o mandatário.

Na casa de Allan dos Santos, que depois de ter sido detido no ano passado por participar das articulações golpistas mudou-se para os EUA, foram apreendidos documentos e manuscritos em que ele diz ter como objetivo “materializar a ira popular contra governadores e prefeitos”, sugerindo que as pessoas saíssem às ruas para derrubá-los. No dia 17 de abril do ano passado, por exemplo, a PF captou conversas de Allan com Eduardo articulando também movimentos contra chefes de outros poderes. Isso aconteceu, por exemplo, na campanha “Fora Maia”, por eles organizada. À época, Rodrigo Maia era o presidente da Câmara e um dos desafetos de Bolsonaro. Eduardo afirma: “A hashtag #ForaMaia passa de 1 milhão. Em breve dirão que são robôs, quer apostar?”. Allan responde: “Ficamos mais de duas horas ao vivo falando para a galera publicar a hashtag contra ele”.

FINANCISTA Hang patrocinaria TV de Allan e Eduardo Bolsonaro

Essas iniciativas para viabilizar os canais de comunicação que divulgassem as teses antidemocráticas só não foram concluídas devido à intervenção do ministro Alexandre de Moraes, relator da matéria no STF. Ao tomar medidas duras para conter a ação do grupo bolsonarista acusado de desestabilizar a democracia, incluindo a prisão de suspeitos e suspensão de blogs golpistas, o ministro do STF deu um “freio de arrumação” e interrompeu as articulações. Agora, a expectativa é que o inquérito seja concluído e que os responsáveis pela trama sejam punidos. Afinal, eles estão cada vez mais organizados para o golpe.

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Fonte Segura: Central de Jornalismo

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