Madero passa do ponto

Rede de restaurantes do empresário Junior Durski pretende recorrer à bolsa para cobrir R$ 2,4 bilhões em dívidas e evitar a falência.

Brunno Covello
Hugo Cilo
Istoé DINHEIRO
Compartilhado por
Central de Jornalismo
03 de julho de 2021

Como preconizam as principais cartilhas de marketing, a autoconfiança e a total ausência de modéstia construíram a reputação do Grupo Madero, rede de restaurantes do empresário Junior Durski dona das marcas como Madero, Jeronimo e Ecoparada Madero, entre outras voltadas ao segmento de cafeterias. O primeiro slogan da empresa paranaense expressa essa vocação de grandeza: “Madero Steak House: o melhor hambúrguer do mundo”. O exagero é tão evidente quanto os problemas que a empresa enfrenta, proporcionais ao tamanho do ego de seu dono. Com dívidas de R$ 2,4 bilhões e risco de fechar, a rede vai buscar uma boia de salvação no mercado de ações. No final de junho, Durski confirmou que quer abrir capital ainda neste ano na B3.

Alguns indicadores sugerem que o IPO pode ser a única saída. No balanço do primeiro trimestre, a empresa menciona a falta de garantias para a renegociação de dívidas e riscos para a continuidade do negócio. Mesmo o patrimônio pessoal de Durski, que durante décadas construiu fortuna com negócios de madeira no Norte do País, seria incapaz de cobrir o rombo da companhia. Procurado pela DINHEIRO, o Grupo Madero informou que está em período de silêncio e não poderá comentar. Em seu balanço, a empresa reconhece que a situação é difícil ao afirmar que há “dúvidas substanciais sobre a capacidade da companhia de continuar em funcionamento dentro de um ano após a data em que essas demonstrações financeiras consolidadas foram emitidas”. Por isso, Durski já contratou quatro bancos para a operação: Bank of America, BTG Pactual, Itaú e UBS para viabilizar a emissão de ações. Do total da dívida bilionária com bancos, fornecedores e governos, uma fatia de 31% é de curto prazo — vence dentro de 12 meses. O IPO havia sido planejado para 2020, mas foi suspenso pelos problemas causados pela pandemia ao ambiente de negócios. Antes, eram os mesmos quatro bancos de agora que estavam a cargo a operação.

FATOR DE RISCO Fundado em 2005 por Junior Durski, o grupo chegou a ter 200 unidades em 70 cidades do País. Em 2019, Durski vendeu 22% de seu capital para o fundo americano Carlyle por R$ 700 milhões. Desde o ano passado, com o fechamento de unidades, alguns sócios minoritários se retiraram, como o apresentador Luciano Huck.

REDE EM APUROS As duas principais marcas do grupo, a Madero e a Jeronimo, tiveram de fechar as portas em função da pandemia, aumentando a aversão de Junior Durski às medidas de restrição ao comércio.
1 de 2 REDE EM APUROS As duas principais marcas do grupo, a Madero e a Jeronimo, tiveram de fechar as portas em função da pandemia, aumentando a aversão de Junior Durski às medidas de restrição ao comércio.

Sob a ótica do mercado, pairam dúvidas sobre o sucesso da estratégia do Madero na bolsa. Assim como o empresário Luciano Hang, dono da Havan, Durski carrega um alto risco político com a proximidade das eleições presidenciais em 2022. Ele ganhou holofotes por ter assumido um papel de incondicional apoiador do presidente Jair Bolsonaro e encampou ações contra o lockdown em vários estados e municípios, além de fazer ataques públicos a instituições eleitas inimigas do chefe do Executivo, como o STF e o Congresso. “Vai lá, guerreiro, e mostre para aqueles sete palhaços [referindo- se aos senadores que compõem a comissão da CPI] como se faz para ajudar o Brasil. Eles, exceto roubalheira, nunca fizeram nada na raça e na legalidade, nunca ganharam nada! Tamo junto”, disse Durski, ao postar em uma rede social uma declaração de apoio a Hang, convocado a depor. Coincidentemente, Hang prepara o IPO da Havan.

Desde o início da pandemia, Durski publica vídeos atacando as medidas de isolamento social e a quarentena. “Não podemos parar por conta de 5 ou 7 mil pessoas que vão morrer. Eu sei que é muito grave, sei que isso é um problema, mas muito mais grave é o que já acontece no Brasil”, afirmou. Pouco mais de um ano depois, ao superar 520 mil mortes pela Covid-19, é evidente que, se Durski leu alguma cartilha de marketinhg, pulou a lição de que é preciso ouvir o cliente. Talvez por isso o Madero tenha passado do ponto.

Administrador

Fonte Segura: Central de Jornalismo

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *