Síndrome do Celofane: a humanidade translúcida

Por Carlos Fernando Galvão
Central de Jornalismo
Domingo,12 de junho de 2022

     Querer ser mais do que se é, é ser menos. Gilberto Amado (1887-1969), escritor e político brasileiro                                                                                       

Normalmente, a classificação de objeto translúcido a um ser humano ou, ainda mais, a um grupo de pessoas, seria, talvez, um tanto delirante, posto que a translucidez é uma qualidade atribuída a qualquer objeto que deixa passar a iluminação através de si, mas distorce a imagem de outro objeto que está atrás dele, por alterações na trajetória da luz. Assim, o que está por detrás de um objeto translúcido, não pode ser visualizado adequadamente por quem olha para ele. Não raro, o observador sequer tem certeza de ver algo por trás do objeto translúcido; por vezes, ele apenas consegue deduzir alguma presença atrás ou no interior desse objeto. A translucidez afeta, pois, a percepção do observador.

Existe um objeto artificialmente criado, o celofane, que é definido como um polímero (uma macromolécula bioquímica, formada pela união de outras mais simples) derivado da celulose (outro composto bioquímico, que constitui as paredes celulares das plantas em geral). Essa caracterização faz do celofane um objeto translúcido e biodegradável (objeto constituído por material orgânico facilmente decomposto por ação bacteriológica e solúvel na presença da água). A aparência do celofane é a de uma película fina e transparente e sua consistência é flexível, o que o torna fácil de ser manipulado e, mais ainda, cortado e destruído.

Talvez você esteja se perguntando: certo, mas qual a relação entre nós, seres humanos, e um celofane? E onde entra a translucidez nessa história? Aparentemente, exceto o fato de que somos entes bioquímicos à base de carbono, não há relação possível entre uma pessoa e uma folha de papel celofane, tanto quanto, sem dúvida, não somos, fisicamente, translúcidos. Entretanto, há considerações possíveis que, sob determinado ponto de vista existencial, se não nos iguala, ao menos nos faz semelhantes a um pedaço de celofane, tanto individual quanto coletivamente.

Salvo em histórias acintosamente fantasiosas, por assim dizer, não gosto, na vida real, da ideia de herói, porque parece que alguns de nós podemos, realmente, beirar a perfeição e a concepção de “salvador da pátria” leva, invariavelmente, a ações por demais voluntaristas de um só indivíduo, ou de uns poucos, que acaba por se achar o suprassumo da espécie humana. O dramaturgo alemão Bertold Brecht (1898-1956) dizia, com assertividade, penso, que triste é o país que precisa de heróis. A saída para crises coletivas é de todos e de cada um de nós.

Muitos brasileiros nascem e vivem em lugares insalubres (mais da metade da população, algo como 120 milhões de pessoas, não tem tratamento de seu esgoto sanitário, segundo o IBGE), sem equipamentos urbanos satisfatórios (escolas, hospitais, praças, locais de lazer, transporte público etc.) e em famílias desestruturadas, mas tentam, a maioria (acredito) apesar dessa desventura, levar suas vidas de um modo decente e honesto. Entretanto, para além das dificuldades por que passa no seu dia a dia estressante, o que poderia e deveria levar a maioria dessas pessoas a revoltar-se e a surtar, vem passando desapercebido, ao menos na prática cotidiana. Vivemos, no mais das vezes, para um futuro radiante, talvez na vida eterna, enquanto nos deixamos ser massacrados, ou nos conformamos com isso, na vida terrena.

Há, em boa parte das pessoas da classe média, da classe média alta e da classe alta (essa então, nem se fala!), uma (quase) total indiferença em relação aos destinos da massa populacional desassistida, explorada e humilhada e um desprezo, na prática, a muitas de suas necessidades e angústias. Esse cenário rouba dessas pessoas sofridas e com poucas chances na vida, a própria condição humana e nos conduz, socialmente, a processos espoliatórios, tanto na constituição subjetiva, notadamente, na formação identitária e na condição econômica de vida, quanto na constituição da sociedade brasileira. Além disso, esse processo destina aos brasileiros aqui referidos, um papel extremamente subordinado no tocante aos aspectos políticos, que guiam nosso dia a dia, ainda que não percebamos isso ou que fiquemos apenas a xingar a política, como se dela pudéssemos abrir mão. Política é a arte de negociar acordos e realizações coletivas, que a todos contemple e não apenas aos aquinhoados pela genética ou pela esperteza vil.

Essas pessoas, que só aparecem em estatísticas oficiais como as de criminalidades, como se nas favelas (já há algum tempo chamadas de “comunidades” no Rio de Janeiro) e áreas pobres só houvesse marginais, parecem não existir. As pessoas “bem nascidas” olham, mas não veem. Como Narcisos, desprezam quem não lhes reflete a imagem e não discursa, com sua voz, suas ideais; essas pessoas olham através desses brasileiros expatriados em sua própria terra, como se fossem homens, mulheres, crianças e idosos, invisíveis, transformando-os em “pedaços de celofane”.

Não ter nada, em um mundo que exige de todos e de cada um, termos tudo e mais um pouco, leva muitos de nós a termos atitudes nada civilizadas, pouco elegantes e profundamente egoístas, para dizer o mínimo e isso vale, inclusive, para pessoas, aparentemente, “normais” e honestas (serão mesmo?). Não podemos, como dizia Brecht, eternizar as tragédias sociais, porque elas não são imutáveis, como também não são, de modo algum, fenômenos da Natureza, posto serem resultados de nossas ações, tanto individuais quanto coletivas. Para Brecht, precisamos ter e manter “olhos estranhados” para ver nas paisagens, materiais e imateriais, o que está por detrás delas. Ao nos recusarmos a ver a miséria aumentando e nos pormos a dizer, por exemplo, que ela é fruto apenas de más escolhas individuais e indolência, eliminamos a dimensão coletiva da construção de uma sociedade, histórica e geograficamente, injusta, além de retirar de cada um, a responsabilidade que, não existindo, agrava a situação da vida em seus aspectos ambientais e sociais. É passada da hora de romper com a dicotomia simplista “bem x mal” ou “nós x eles”; é hora, nem de uns ou outros, mas de todos, separados na diversidade, mas unidos pela irmandade de uma vida boa e justa, honesta, agradável e feliz.

A falta de educação, a péssima distribuição de renda e o acesso restrito aos postos de poder político e econômico, numa palavra, social, sem desprezar aspectos das subjetividades envolvidas, conduzem a maioria das pessoas a uma posição de subalterna humilhação e, no limite, desprezo e esquecimento. Esse tipo de mundo é castrador de esperanças e de vidas e para quem não consegue viver uma vida de sonhos (a maioria espoliada e invisibilizada), só resta viver a vida real, amarga e penosa. Os fundamentalistas de todos os tipos, cores, credos e ideologias, nos prometem a glória eterna em outras vidas etéreas, para manter a exploração cruel nesta vida. Deste modo, a estruturação dessas vidas invisibilizadas acaba acontecendo pelo ódio e pela violência, único modo que resta aos “celofanes humanos” para serem percebidos e reconhecidos.

O filósofo Immanuel Kant (1724-1804), com seu Imperativo Categórico, dizia que tudo o que não podemos dizer o porquê e o como fizemos, não deveria ter sido feito. Simples assim. Espera? Simples? Não, não é simples, porque tal atitude exige, dentre outras coisas, desprendimento do consumismo materialista excessivo, ainda que travestido por discursos fundamentalistas, que nos assola, esmaga e que está levando este planeta para caminhos tortuosos e incertos. O outro, no mais das vezes, não tem sido mais do que um celofane: vemos o mundo e a vida através dele e não percebemos que um mundo melhor só pode ser construído com esse outro – e não apesar dele. No mais das vezes, vemos o outro apenas quando o exploramos ou quando ele reivindica migalhas do que temos. A insubordinação e a violência são frutos diretos dessas vidas invisibilizadas; celofanizadas, por assim dizer. Agora, com a pandemia do Coronavírus, a falta de empatia pela vida humana alheia atingiu os píncaros.

Vivemos uma epidemia da “Síndrome do Celofane”. Contra essa, não adianta isolamento e não há vacina. Há, ou deveria haver, consciência e sensibilidade.

Não fazermos nada e mantermo-nos em nossas “bolhas de conforto” está nos levando a cenários de vida muito difíceis e se não mudarmos, em pouco tempo, histórica e geograficamente falando, talvez não tenhamos mais como voltar atrás, o que significa dizer que o mundo o qual estamos deixando para as gerações futuras está seriamente ameaçado de parecer, cada vez mais, com cenários tenebrosos, como por exemplo, o do filme, “Blade Runner” ou “Maze Runner” ou outros tantos filmes, que versam sobre futuros distópicos.

Quantos de nós, em nossos espaços de vivência, passamos por verdadeiros “celofanes humanos” e, claro, não os vemos – ou não os queremos ver? Quantos de nós nos deixamos ficar anestesiados por estarmos distantes desses “celofanes humanos”, jogados e aprisionados que estão em seus guetos, onde só entra a polícia e/ou o narcotráfico e/ou a milícia, mostrando apenas a face repressora da sociedade? Como exigir carinho de quem só levou tapa na cara? Quantos de nós nos contentamos com nossas “bolhas de conforto” e só vemos a “película celofânica” do outro quando nos interessa ou quando ela se põe (ou é posta) no nosso caminho? Quantos de nós não somos, em maior ou menor medida, um desses celofanes humanos? Quantos de nós não nos tornamos “celofanes” de nós mesmos, auto-mutilados pela cegueira consumista e egoísta, hedeonista e teleológico, pela falta de empatia para com a vida, pelo preconceito e pela ganância, tudo incentivado pelo sistema das “selfiedades” (sociedades que cultuam as “celebridades”, no mais, medíocres símbolos de vida; o “self” vem das fotos que as pessoas vêm tirando de si mesmas, narcisistas incuráveis) capitalistas.

A translucidez desses “zumbis” que gritam, todos os dias, mas para os quais temos feito ouvidos moucos, está a nos atingir e atingirá, queiramos ou não, tenhamos nós o mais aguçado senso humanitário ou permaneçamos envoltos pelo mais puro egoísmo, preconceitos vários e despreparo para viver em uma coletividade sadia, respeitosa, carinhosa, solidária, fraterna e justa. O que você, leitor(a) tem feito contra essa “celofanização” da vida humana e social?

Como nos ensinou o grande Jorge Amado, na frase da epígrafe deste artigo, não podemos tentar ser mais do que somos; abraçar o mundo com as pernas, como se diz, nos é prejudicial. Contudo, por um compromisso para conosco mesmos e com os nossos, também não podemos aceitar as tentativas que, a todo momento aparecem, vindos sabe lá de onde (embora por vezes saibamos), que nos impinge a ideia de que somos menos do que, efetivamente, somos ou podemos vir a ser. Quando deixamos que nos apaguem a luz interna, por assim dizer, tornamo-nos translúcidos e, invisibilizados, morremos em vida.

Carlos Fernando Galvão, Geógrafo e Pós Doutor em Geografia Humana, cfgalvao@terra.com.br

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