Bolsonaro rumo a autocracia no modelo da Hungria de Viktor Orbán

Por Roberto Seabra para o Central de Jornalismo

Pesquisa de opinião encomendada pela revista Veja e divulgada neste 24 de julho, aponta o favoritismo de Bolsonaro para 2022. Se a eleição fosse hoje, ele lideraria o primeiro turno e venceria no segundo, em qualquer cenário. Venceria Lula ou Haddad, Moro, Ciro, Huck e Doria. E no primeiro turno, o segundo colocado seria o Moro, o que faz pensar que a vitória de Bolsonaro no segundo turno se daria principalmente com os votos dos apoiadores do ex-juiz e ex-ministro.
O que isso quer dizer? Os analistas já devem estar avaliando, mas tenho cá a minha opinião. Acredito, sinceramente, que o Brasil entrou em uma rota de autodestruição que, se não for mudada, nos levará para um buraco do qual não sairemos tão cedo. Se a ditadura militar precisou de duas décadas para destruir a nossa frágil herança democrática, o bolsonarismo, junto com o lavajatismo, fará isso em bem menos tempo.
E o pior. Ao contrário dos anos 1970, quando o milagre brasileiro silenciou a classe média, agora teremos uma situação de grave crise econômica e recessão, que só poderá ser amenizada com o aumento da carga tributária sobre a classe média e a transferência de recursos para os pobres e desempregados.
Enquanto a Ditadura cooptou a classe média e abandonou os pobres, Bolsonaro está fazendo o contrário. Vai cooptar os pobres com a manutenção das políticas sociais herdadas dos governos do PT e se afastar da classe média, que ficará nos braços de Moro, do PT e dos demais partidos. Com um governo populista de extrema direita, Bolsonaro poderá chegar onde seu grupo espera: uma autocracia no modelo da Hungria de Viktor Orbán.
A democracia existirá apenas como fachada. Por dentro, quem mandará serão os militares, no grande círculo; e as milícias, nos pequenos círculos, ao lado de pastores pentecostais e outras lideranças conservadoras.
O Congresso Nacional será apenas um pálido espelho desse novo sistema político (hoje já existem lá dentro cerca de 100 lideranças de extrema direita, entre pastores, militares, ruralistas e empresários).
Existe uma saída? Acho difícil. Se Trump não for reeleito, Bolsonaro perderá um grande aliado, e isso poderá ser a senha para que as esquerdas de juntem para fazer uma oposição organizada, o que hoje não temos. Mas essa união das esquerdas não será suficiente para barrar a onda autocrática. Precisaria de um forte apoio da elite esclarecida, cada vez menor e menos esclarecida, e da classe média, que precisaria se desfazer de seu ranço udenista para acreditar na retomada de um projeto social-nacional-desenvolvimentista, que só vingaria se fortalecido por uma agenda ambiental de verdade e forte apoio às minorias execradas pelo bolsonarismo.
O problema é que, enquanto durar a pandemia, Bolsonaro poderá continuar fazendo o que faz, sem medo de ver as ruas sendo tomadas por manifestantes e grevistas. Aliás, esse é o cálculo. Aproveitar a crise sanitária que já matou mais de 80 mil pessoas e fazer passar a boiada, como bem resumiu o ministro do desmatamento.
E a boiada só cresce: já aprovaram a privatização da água e do esgoto; devem aprovar nos próximos meses uma reforma tributária que vai aumentar a carga tributária sobre serviços, sobre a classe média trabalhadora e os profissionais liberais e pequenos empresários; e até o final do ano esperam aprovar uma reforma administrativa que permita demitir servidores e reduzir os salários, via redução da carga horária, o que o Supremo Tribunal Federal já sinalizou que aceita.
E quando acabar o isolamento social, o que sobrará para defender? Pouca coisa. Mas é sobre essa parca herança que as esquerdas deverão se unir, para evitar que o Brasil afunde de vez e tenha não uma, mas duas ou três décadas perdidas. Quem viver poderá saber.

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Fonte Segura: Central de Jornalismo

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