Diário da Quarentena-Covid-19 é a guerra mais mortal da história do Rio Grande do Sul

Por Caco Schmitt

Jornalista, roteirista e diretor. Trabalhou na TV Cultura/SP como diretor e chefe da pauta do jornalismo; diretor na Agência Carta Maior/SP e na Produtora Argumento/SP. Editor de texto no Fantástico, TV Globo/SP. Repórter em vários jornais de Porto Alegre, São Paulo e Brasília.

Dia 307

Por ser uma das últimas fronteiras demarcadas no Brasil, o Rio Grande do Sul foi um território permanente de disputas, guerras, revoluções e mortandade. Desde o século 17 enfrentou lutas genocidas de europeus contra os primitivos habitantes, entre potências coloniais, refregas entre os próprios conterrâneos e desafios dos locais contra o país. Antes mesmo de integrar o mapa nacional, o território gaúcho era percorrido pelos bandeirantes paulistas, que inauguraram a temporada de sangue. Em 1641, às margens do rio Uruguai, a batalha do M’Bororé entrou para a história como uma das poucas vezes que os guaranis resistiram às investidas dos caçadores de escravos. A história escrita pelo conquistador não registra com precisão o número de mortes durante esse período que pôs fim ao aldeamento e forçou a fuga de índios e jesuítas para o outro lado do rio Uruguai. Muitos seres humanos morreram de pólvora e vírus. Jamais saberemos quantos…
Essa luta desigual adentrou século 18. De 1753 a 1756, o território viveu a Guerra Guaranítica, motivada pela decisão de Espanha e Portugal de trocar as Missões Jesuíticas pela Colônia de Sacramento. Para tanto seria necessária a remoção de 30 mil índios e 700 mil cabeças de gado. Esse conflito de três anos resultou (oficialmente) na morte de 1.511 guaranis, segundo alguns livros, mas os números são maiores. Jamais saberemos o total exato de mortes. Assim como não saberemos o número de mortes durante a invasão espanhola em 1763, com a ocupação de mais da metade do Rio Grande até abril de 1776.
De 1835 a 1845, os gaúchos conviveram com a Revolução Farroupilha, a mais longa rebelião do período regencial do Brasil, que deixou de três a cinco mil mortos em dez anos de combates. Os números nunca são precisos. Foi uma revolta mobilizada pelos grandes proprietários de terra insatisfeitos com os altos impostos cobrados pelo governo imperial. O Rio Grande chegou a se separar o Brasil. Logo em seguida, a Guerra do Paraguai chegou até o Pampa em 1865, com os cercos das cidades de São Borja, Itaqui e Uruguaiana, todas às margens do rio Uruguai. Houve poucas mortes, oficialmente, jamais saberemos quantas.
De toda a história de confrontos no Rio Grande do Sul o maior em número de mortes ficou com a Revolução Federalista, uma sangrenta guerra civil de fevereiro de 1893 a agosto de1895, que matou quase dez mil gaúchos. Por aqui definimos como uma disputa dos maragatos, federalistas contrários ao sistema presidencialista, contra os chimangos, republicanos que apoiavam o governo. Os gaúchos presenciaram a selvageria da degola. 31 meses de sangue e horror!
A última grande mortandade no estado ficou por conta da Revolução de 1923, movimento armado dos partidários do presidente do Estado, Borges de Medeiros, os Borgistas ou ximangos, contra os revolucionários aliados de Joaquim de Assis Brasil, os Assisistas ou maragatos. Foram 11 meses de luta e os gaúchos assistiram a estreia da metralhadora nos conflitos. Registros falam em pelo menos mil mortos. Nunca saberemos o número exato de mortes… A paz acabou com o instituto da reeleição no estado e com a indicação prefeitos e do vice-presidente do Estado.
Na Revolução de 30, depois de lutas que resultaram na deposição do presidente Washington Luís, um golpe de Estado põe fim à República Velha, com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder. Número de mortos aqui no RS é impreciso. Por fim, houve a Legalidade em 1961, movimento de resistência liderado pelo então governador Leonel Brizola à tentativa de um golpe militar, que aconteceria mais tarde em 1964. Número de mortos é impreciso.
Hoje, 19 de janeiro de 2021, com mais 84 mortes registradas nas últimas 24 horas, o número de pessoas que perderam a vida por conta da covid-19 passou dos 10 mil. A primeira morte no Rio Grande do Sul foi confirmada no dia 24 de março. Em dez meses de epidemia morreram dez mil pessoas. Na mais violenta guerra dos gaúchos, a Revolução de 1893, foram necessários 31 meses de luta armada, selvagem, violenta e fraticida para por fim a vida de dez mil pessoas. A covid-19 precisou de dez meses. Nenhuma das guerras ou revoluções que ensanguentaram o solo gaúcho por quase quatro séculos foi tão devastadora como a luta que todos estamos travando contra esse inimigo mortal e invisível. Meus sentimentos a todas as famílias enlutadas.
NÚMEROS DE HOJE NO RS: 10.051 mortes e 512.343 casos

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Fonte Segura: Central de Jornalismo

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