Afinal de contas, somos burgueses ou proletários?-Por Grace Maya

Por Grace Maya
Central de Jornalismo
17 de maio de 2021
Foto: Ramiro Antico
Grace Maya veste: Basura
Fashionart

Semana passada, escrevi meu famigerado post lunar com certa antecedência, ajudada pelos acontecimentos nefastos ocasionados pela ação da polícia na Colômbia. Fiquei toda semana me questionando se foi acertado não escrever também sobre a chacina do Jacarezinho! Fiquei na dúvida se acrescentava um parágrafo no meu textão, mas como o tema era exatamente o mesmo, deixei de lado para não desequilibrar o texto, e não parecer menos importante e hoje me senti na obrigação de comentar isso para começar a conversa.

Às vezes, escolher um tema tem uma solução muito simples: o que vem primeiro na cabeça quando penso em que me indigna mais hoje? Então, me lembrei de um vídeo que vi essa semana tentando explicar porque a burguesia não é burra. Taí meu tema favorito quando trato de indignação: burgueses! Talvez seja o momento correto de atualizar, ou para usar um termo da moda, ressignificar. Parece que a pergunta mais interessante seria: quem são os burgueses e o que eles querem? Entender o que é um burguês é fundamental para qualquer discussão política, e mais, saber se você é um burguês é fundamental para você não dá o famoso tiro no pé, e é disso que se fala quando o tema é a consciência de classe, ou seja, saber quais poderes tem seu avatar é essencial para jogar bem o jogo da pólis.

Para começar, podemos afirmar categoricamente que já não se fazem burgueses como antigamente! A origem da classe burguesa é diferente em vários países, em Inglaterra, Espanha e Itália, por exemplo, vamos ter diferentes formas de origem burguesa, mas o que podemos afirmar em linhas gerais, é que ser burguês hoje é ser adepto ao estilo de vida capitalista. A confusão é conhecida e gera cara feia e ressentimentos quando apontamos o dedo e denunciamos certos comportamentos, assim, me parece razoável buscar pistas do que seria um burguês em pleno século 21, para que as acusações sejam mais precisas (risos malígnos)

Obviamente, como qualquer classificação desde Ari até os dias de hoje, existem exceções, sabemos que algumas vezes é impossível definir bem que tipo de burguês é uma pessoa singular, porque para isso é necessário conhecer bem os bastidores da história de cada um. Mas em linhas gerais, poderíamos detectar 6 tipos básicos, como sugestão.

Burguês Raiz, são os burgueses propriamente ditos, os que detêm os meios de produção, os self made millionaires, são esses os burgueses da Revolução Francesa, são esses os burgueses da Revolução Industrial e são esses os burgueses de Marx. Aqui já dá pra ver que o trem fica confuso, porque a palavra revolução fica no meio entre Max e os interesses da Rev. francesa que estavam ótimos, mas não resolviam o tema da plusvalia, óbvio. Esses burgueses que uma vez se organizaram em grêmios contra o poder da igreja e o poder absoluto do rei, também são os que exploram o proletariado. Essa já é uma confusão básica e junto com isso, temos várias variantes deles. Com a colonização, muitos assaltaram os cofres naturais das colônias e junto com o comércio de escravos começaram a juntar capital e começam uma nova forma de acúmulo de capital que derivou a próxima galera:

O burguês diamond, é o burguês que substitui o nobre de antigamente, são os detentores de terras, tecnicamente não são burgueses, óbvio, porque estão no campo, mas aderem ao capitalismo, que é nosso princípio básico. Esses burgueses são altamente influentes na política e suas famílias ocupam cadeiras políticas em todo mundo. Podemos chamar de burguês porque têm o estilo de vida burguês, são esbanjadores, consumistas, pouca cultura, mal gosto, são uns neandertais com muita grana, altamente capitalistas em princípios e estilo de vida.

No meio desse bando, tem umas pessoas que querem parecer o primeiro tipo, como vi essa semana uma tal de Marina Ruy Barbosa, nunca ouvi falar, mas descobri que tem 185 milhões de dólares como patrimônio. Okay, vamos lá, na verdade é uma mina que vem de uma família aristocrata, sabe aproveitar o know-how do nome e dos contatos e se passa de self-made millionaire de 25 anos! Digamos que ela encontrou uma forma chique e hipócrita de dizer que ficou rica sem ajuda do papai. Isso serve para ajudar a meritocracia de merda a fazer os pobres trabalhadores acreditarem no paraíso resultado do esforço e do trabalho e imagino que a ela serve para se sentir menos incopetente.

O burguês golden, é outro tipo de self made millionaire. É gente como o Edir Macedo e empresários que trabalham exclusivamente com lavagem de dinheiro e especulação financeira. Ou seja, têm negócios, qualquer tipo de business que sirva para facilitar a lavagem, e a igreja nesse caso entra como negócio. Em geral, são pessoas que vieram da de classes mais baixas, por isso são os melhores exemplos para livros de coaching e meritocracias de todo tipo. É uma classe de burguês que representa perfeitamente a pulsão por dinheiro, puro desejo direcionado à acumulação de dinheiro, não é vontade de poder, como dizia Fred, não há vontade de ser melhor, tão pouco de mais poder, não tem a ver com a possibilidade de estar sempre mudando, criando e buscando novas formas de expressão de si mesmo, ou buscar melhores produtos, nada disso, aqui é pura pulsão. São esbanjadores, já que precisam lavar a grana e são completamente idiotas para tudo mais. É comum a junção desses com os burgueses raiz.

Burguês plus, esse é aquele vizinho rico, esse é aquele cara que trabalha mesmo, desde criança, ralou o bucho no balcão, fez dinheiro, pode ou não ter uma franquia e tal. Comprou imóveis, aprendeu a guardar e investir a grana, tem um patrimônio grande, mas factível, se pode ver o nexo causal facilmente. Geralmente cria bem os filhos para não ser uns playboys folgados desequilibrando o orçamento familiar, e mantém a questão de impostos, capital de giro, liquidez em alto nível de eficiência, tudo sem milagres, é um burguês propriamente dito também, não os de Marx, mas os dos burgos. Esse deveria ser o verdadeiro exemplo de coaching, mas essa galera é zero glamour e não serve de exemplo, não são esbanjadores típicos, alguns têm bom gosto. Têm estilo de vida burguês.

Eu meteria forçadamente nesse grupo, por um critério de quantidade e origem da grana, os médicos, advogados, militares e outras profissões mais dignas digamos dentistas, engenheiros, arquitetos… Essas são profissões glamurosas por si mesmas, com status em si mesmas, que não comercializam produtos, não são detentores de meios de produção, mas prestam serviços. O que vale aqui é o imaginário burguês, o estilo de vida e os princípios básicos de família, Estado e igreja que são os pilares dessa classe. Ainda que para o capitalismo possam passar despercebidos, são de fundamental importância na perpetuação do ideal burguês a longo prazo, a classe média.

Burguês nutella, esse tipo é uma resignificação indeed, baseada quase que exclusivamente no imaginário, no estilo de vida desse grupo, e eventualmente pode haver um mix de Plus com Nutella. Esse é o funcionário público! É um burguês que em geral não sabe vender nada além da própria liberdade e qualificação. Eles são essas pessoas que pagam as contas em dia e têm direito a férias , 13º, e podem trabalhar bem ou não, segundo a própria ética e vontade de poder de cada um. Extremamente servil à burocracia kafkiana, são cidadãos de bem, bem adaptados, bem vistos pela família e pela sociedade. Aqui podemos dividir em dois grandes subdivisões: Primeiro grupo: os ressentidos que ostentam e odeiam tudo, resultado direto de abrir mão da liberdade e o segundo grupo: os de esquerda, se sentem livres, cumprindo seu dharma, desapegados de dinheiro, tranquilos, satisfeitos, empáticos, preocupados com o público, com o comunitário, revolucionários de sofá, muita preocupação e ações de baixo impacto.

Eles são os únicos aptos ao pensamento crítico. Eles às vezes tem aquele negócio, ou vendem algo, muitos são artistas, aqueles famosos artistas que tocam de graça fazendo dumping no mercado, porque são desapegados e não pagam as contas com arte, quando fazem artesanato enfeitam suas próprias casas, vende pros amigos os quadros, livros, tudo sempre com muita consciência, conversas amenas, entre livros e conversas regadas de cerveja, esse é o famoso revolucionário intelectual. Zero molotov e muitas ideias que muitas vezes nunca são mais que isso, ideias.

Esse tipo de burguês também adora o ideal burguês de vida confortável, consumo, status, e o pior de tudo a tal da estabilidade. Aqui se perdem, a estabilidade é um produto neoliberal e eles são os pilares dessa ideologia, representam o máximo de ideal burguês. Nós que somos desse grupo, somos os únicos capazes de pensar e reagir com um pensamento crítico ao status quo, mas não, somos um câncer social, somos a única saída, mas somos inertes, incapazes, ineptos, já não podemos, já não vamos, já não dá,e se depende de nós, o capitalismo ganha por W.O.

Agora temos um tipo de burguês muito discutido e pouco entendido, é o burguês premium. Aqui fica o resto da sociedade com força de trabalho, é o antigo proletariado, mas também é o burguês bolo de pote, é o burguês cerveja 3 amigos, mas também é o cara do cachorro quente, o cara que vende cinto de couro, é a empregada doméstica, é um grupo de trabalhadores que levanta todo dia e faz o corre! Eles consomem e buscam o conforto, buscam ter uma vida dentro dos ideais burgueses, estão aburguesados e não sabem que foram contaminados pelo pior vírus de todos: o capitalismo! Mas sabemos que eles não têm tempo para filosofar e não lhes dá o corpo, não, eles no máximo podem reagir, mas a coerção é muito mais forte que eles. A polícia mata antes deles pensarem! Eles precisam de ajuda e é difícil ajudar porque é muita gente, o Estado deveria se responsabilizar, mas já sabemos que não há interesse político. Não podemos cobrar nada deles, eles são um sintoma gerado e alimentados pelos grupos acima. Aqui a utopia toma forma claramente e dá desespero.

Resumindo, ficaria mais simples dividir em 😮 povo que tem grana e o povo que não tem grana! Esses não aparecem nessa classificação, porque não fazem nada, somente passam fome e sobrevivem abaixo da linha de pobreza, não são burgueses, nem consumidores,só desejam sobreviver, são marginalizados absolutos! Vemos assim, que na nossa sociedade ou você é burguês ou você não existe.

O que podemos fazer então??? Vamos salvar os cachorros e gatos do condomínio, que também sofrem e é mais fácil de salvar que os humanos??? Okay! Mas sabemos que o pior mal é o ideal de vida burguesa que contamina toda sociedade, uma sociedade voltada para o consumo e produção excessiva, exploração da identidade do ser como produto e justificativa concomitantemente. O EU produz, o EU compra, o EU faz isso, o EU é aquilo, o EU, o EU, o EU tão naturalizado em nossa vida capitalista. O EU inventa desculpas, o eu é cínico e hipócrita e deseja tudo!

Tenho certeza que a maioria pensa que sempre existiu um EU! Não camaradas! Nem sempre existiu o EU, o EU foi criado para o capitalismo neoliberal! Antes não existia o EU, não se usava essa palavra, muito menos a ideia de individualidade, como conhecemos agora na modernidade. O comunitário era o lugar comum, não o comunismo,que é uma reação ao EU, o comunitário, o solidário, e humanitário que é o natural da nossa raça. Mesmo que vivamos de home office e deliveries, somos seres sociais e sobrevivemos milênios baseados nessa capacidade de empatia e solidariedade.

E ainda que a quarentena nos faça pensar que podemos sobreviver sem os abraços e olhares tête à tête, isso nunca será de todo verdade! Nós humanos somos seres que não sobrevivemos sem um abraço apertado e olhar carinhoso! O capitalismo que se arrume e abra um espaço para o afeto positivo, porque estamos todos morrendo juntos e mais, digo: agora sabemos mais do que nunca que a vida burguesa não basta!

Grace Maya
Buenos Aires, maio 2021

Foto: Ramiro Antico
Veste: Basura fashionart

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