Diário da quarentena – Abrir sem regras é caminhar sobre uma fina camada de gelo

Por: Caco Schmitt

Jornalista, roteirista e diretor. Trabalhou na TV Cultura/SP como diretor e chefe da pauta do jornalismo; diretor na Agência Carta Maior/SP e na Produtora Argumento/SP. Editor de texto no Fantástico, TV Globo/SP. Repórter em vários jornais de Porto Alegre, São Paulo e Brasília.

Antes de flexibilizar o distanciamento social e liberar as atividades comerciais e industriais, o Brasil precisa definir que a segurança coletiva está acima da liberdade individual! Ninguém mais tem direito de sair de casa sem máscara. Ninguém mais divide o banco do ônibus, trem ou barco com outro passageiro, cada um na sua janela. Ninguém fica na fila a menos de 1,5 metro do vizinho da frente e do vizinho de trás. Ninguém abre a loja sem oferecer álcool gel e um ambiente seguro ao freguês e funcionários. As fábricas não podem ser em foco de contaminação e sim ambientes seguros para os trabalhadores. Chegou a hora dos governantes serem firmes em nome da segurança coletiva. Calamidade pública não aceita liberalismo. É obrigação resistir às pressões e salvar vidas! A China usou as regalias de um regime autoritário e centralizado e ordenou a todos: “fiquem em casa”, mas organizou o fornecimento de alimentação e ninguém precisou sair pra trabalhar ou entrar em fila pra ter dinheiro. No Brasil, dá calafrios ao ver as pessoas amontoadas nas filas, trocando vírus devido à falta de regras firmes de convivência. Outras vão às ruas, sem máscara, insufladas pelo psicopata bufão que dirige o país. Por isso, as autoridades do país precisam, antes, superar a curva ascendente da Covid-19 para, depois, elaborar planos de retomada. Basta ver como três dos países mais afetados na Europa começam a reduzir o distanciamento social, depois de longos debates. A Alemanha está soltando aos poucos, com muito cuidado. Nas escolas, retornam primeiros os mais velhos e com distância entre eles. No comércio, a reabertura começa por estabelecimentos de até 800 metros quadrados e assim por diante. Apesar desses cuidados, a taxa de contágio (que indica em média para quantas pessoas um infectado transmite o vírus) subiu de 0,9 para 1, segundo alertou ontem o Instituto Robert Koch (RKI). A chanceler Angela Merkel disse que se passar de 1 por 1,3 voltará tudo ao que era antes. Ela advertiu: “Não estamos na fase final desta crise. Ainda estamos no princípio”. E disse a frase que define a flexibilização: “o país caminha sobre uma fina camada de gelo”. Merkel teme que a pressa provoque uma segunda onda da covid-19 que seria mais perigosa. Isso que a Alemanha aumentou o número de leitos de UTI de 28 para 40 mil, e 12 mil estão vazios. Os alemães pretendem romper a cadeia de contágios realizando testes maciços. Querem chegar a 4,5 milhões de testes por semana.
A França iniciará o relaxamento no dia 11 maio, cautelosa e progressivamente. Para sair do confinamento, iniciado a 17 de março, a estratégia será: proteger, testar e evitar. O país abrirá por regiões e seguindo critérios: número reduzido de casos; realização de muitos testes na população e capacidade da rede hospitalar local. Por não haver vacina e medicamentos eficazes, os franceses defendem muito cuidado para conviver com vírus. O uso de máscara será obrigatório, as escolas reabrirão em etapas e encontros na rua não poderão reunir mais de nove pessoas.
A Espanha tem o Plano de Transição para uma Nova Normalidade, de forma “gradual, assimétrica e diferenciada”. Serão quatro fases de duas semanas cada. Na fase zero, preparação para a saída do confinamento, abrem as pequenas lojas e restaurantes, mas sem consumo no local. As crianças poderão sair à rua e os adultos fazer desporto. Na fase 1, o “arranque” das pequenas empresas, o pequeno comércio, sob condições estritas de segurança. Abrirão hotéis e alojamentos turísticos e lugares de culto. Na fase 2, escolas, teatros e outros espaços culturais poderão abrir com um terço da sua lotação. Na fase 3, os espaços comerciais poderão receber metade da sua lotação, e os clientes terão de manter dois metros de distância entre si. O uso da máscara será recomendado. Para o primeiro-ministro, Pedro Sánchez, a transição é o momento “mais perigoso e difícil” da pandemia. Segundo ele, “a impaciência não deve pôr em risco todas as conquistas na luta contra o novo coronavírus”. E aqui no Brasil, a velhas elites e o desespero dos brasileiros desassistidos propositalmente pelo governo pressionam, antes do tempo, pela abertura cujo único planejamento é: se der errado, a gente recua! Nossa camada de gelo é fina demais…

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Fonte Segura: Central de Jornalismo

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