Crônicas S/A – O carteiro e a cigana

Vicente sá


Este nosso mundo é mesmo rico em ensinamentos. É só ficar atento e aberto que a gente aprende alguma coisa. Ontem mesmo, ao sair para caminhar, conversei, à distância, com o filho do vizinho e me encantei com sua observação:
– Tio, eu descobri que os seres humanos são, ao mesmo tempo, heróis e vilões. Sabe o homem barbudo que mora naquela casa? Pois ele jogou lixo no meio da rua e veio o gari e limpou e nem ralhou com ele.
Falei pra ele colocar, de novo, a máscara e segui caminhando, mas já envolto em bons pensamentos e lembranças interessantes.
Pensei que essa pandemia, além de mostrar a imensa desigualdade em que vivemos, apresentou, também, uma faceta solidária de muita gente. Pessoas que contribuíram, não só financeiramente como, também, com gestos, palavras e até cantos.
Lembrei-me de um primo distante que, ainda nos idos de oitenta, foi acusado de violar correspondências. Eu explico a ligação:
Emiliano – este é o nome dele, caso ainda viva – era um humanista de carteirinha e, desde criança, se deixava levar por seus sentimentos e vontade de ajudar as pessoas. Já era carteiro do bairro do Monte Castelo, lá em São Luís do Maranhão, há muitos anos, quando se deu conta que as cartas que entregava nem sempre traziam boas notícias. Muitas vezes, ele via as pessoas chateadas, zangadas e até chorando por conta de suas entregas.
Assim, um dia, resolveu que só entregaria cartas que trouxessem boas notícias.
– As más notícias podem esperar, dizia para si mesmo.
E, realmente, o bairro do Monte Castelo viveu alguns meses de, se não falo felicidade, digo tranquilidade e alívio, e as pessoas passaram até a se relacionar melhor com os vizinhos, por conta desta falta de notícias ruins.
O problema é que, para saber se uma correspondência trazia notícias desagradáveis, ele tinha que abrir as cartas e lê-las. E, mesmo colando com todo cuidado e carinho, uma pessoa mais observadora acabou descobrindo que sua carta fora aberta.
A denúncia foi feita na agência e chegou até a direção dos Correios, que ordenou uma investigação, e acabaram flagrando Emiliano no quintal da casa de dona Margarida, uma senhora idosa que quase não saía da cama, lendo e reescrevendo algumas cartas.
A obsessão de Emiliano tinha crescido e sua vontade de ajudar era tanta que ele não só impedia que más notícias chegassem aos moradores do bairro, como as transformava em boas novas.
Assim, aquele tio que havia morrido de tuberculose, se curava e agora até praticava esportes. Aquela avó que era tão rabugenta que ninguém a tolerava, se transformara num anjo de pessoa e até contava histórias para os netos. O padre conservador que, no seu sermão, tudo condenava, tornara-se um liberal da noite pro dia e não dava mais broncas nos seus paroquianos, mas, sim, festas para todos.
Ainda com caneta e papel na mão, Emiliano foi autuado e, como medida exemplar, foi levado pela direção dos Correios, qual um condenado, a pedir desculpas de casa em casa, morador por morador. Um lhe gritava na cara que ele havia ferrado sua vida ao impedi-lo de ir ao enterro do tio tuberculoso, outro lhe chamava de mentiroso e coisas piores. Alguns, talvez mais sábios, diziam que ele não era um criminoso, mas um tolo que queria ajudar.
Emiliano a tudo ouvia e calado ficava.
O certo é que foi demitido e preso e nunca mais se ouviu falar dele.
Também é certo que, alguns dias depois que ele foi solto, uma barraca foi instalada num terreno baldio do bairro e uma cigana, alta e de voz grossa, passou a ler, por uma ninharia, a sorte dos moradores. O interessante é que ela só via coisas boas no futuro das pessoas.
Termino de lembrar esta história no final da caminhada, próximo ao portão de casa e um carteiro, que me recorda alguém conhecido, passa de bicicleta e, como se lesse minha mente, me grita:
– Que coincidência com essa cigana, não é, Vicente?
Não é por nada não, mas vou verificar com mais cuidado minha correspondência.
Vicente Sá
Novo PS: As Crônicas S/A, agora, estão sendo publicadas nos portais – Central de Jornalismo – www.centraldejornalisamo.com.br e www.aultimafolha.com.br e transmitidas pela Rádio Esplanada FM, todas as segundas feiras às 9 horas da manhã. Os leitores que quiserem ouvir minhas histórias pela minha voz devem acessar o site www.radioesplanadafm.org ou usar o aplicativo radiosnet.com. Até o próximo Domingo ou até amanhã

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Fonte Segura: Central de Jornalismo

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