Crônica S/A – Tirésias e Pancho Villa

Vicente Sá

Como diz o samba, recordar é viver. Então, lembrei-me de um bar que ficava ali na 713, na parte de trás do comércio que é conhecida pela turma das antigas como W3 e Meio. Estou falando da Asa Norte, é claro. Mesmo porque, na Sul, você não vai achar boteco nenhum na W3 e Meio de lá, só colégios e escritórios.Mas, voltemos à recordação. O nome oficial era Bom Filé, mas a turma chamava de Coxão Duro, talvez com uma certa ironia, mas Eulálio e Verônica, os donos, nunca ligaram.O Coxão Duro tinha algumas particularidades que lhe davam um charme especial e o faziam galgar um degrau a mais na escala dos pés sujos.Primeiro: era escondidinho, ou seja, ficava meio oculto por duas lojas de roupas que o ladeavam e expunham seus artigos à frente, na calçada. Quem passasse de carro, dificilmente o notaria. E como a maioria dos bons bebedores adora um esconderijo…Segundo: tinha um atendimento mais do que correto, familiar. Os donos e Pancho Villa, o garçom, tratavam a todos os clientes como amigos antigos. E não tinha jeito, cliente novo só ficava “novo” por uma semana. De alguma forma, eles faziam você se abrir e se tornar companheiro de toda a turma.O outro funcionário era o Tirésias. Vocês já imaginaram um ajudante de cozinha cego? Pois era assim. E os copos e pratos do Coxão eram ultra limpos. Pareciam que tinham acabado de sair da fábrica. O Profeta, certa vez desenhou, com caneta Pilot, um barquinho no prato pra ver se passava pelo processo de higienização de Tirésias, mas qual. Ele ainda comentou a obra e as saudades que o Profeta estava sentindo do mar. Não sei como ele fazia, mas fazia.Verônica cozinhava uma rabada de começar a comer de joelhos e terminar canonizado. Era sempre na quarta-feira, o dia que a casa ficava mais cheia. E foi numa quarta que, depois de limpar tudo, Tirésias me chamou e me levou ao seu quartinho na parte de cima do bar. Me mostrou seu computador portátil que funcionava com controle de voz e me pediu para olhar a foto de um cara com quem ele havia marcado um encontro.- Vai ser um encontro às cegas, brincou ele, olhando para coisas que eu não via.Achei o sujeito simpático e talvez até parecido com alguém, mas não atinava com quem.Elogiei a iniciativa de Tirésias e pedi que ele, depois, me contasse como fora.Na semana seguinte, na outra quarta, ali pelas três e meia, Tirésias, com ar alegre, me chamou.Nem precisamos subir, na escada ele me parou e contou:- Você achou a foto parecida com alguém, não foi? Por isso demorou para falar naquele dia, eu senti. Pois saiba que é o Pancho Villa sem bigodes. Sentou-se num degrau com as pernas bem juntas e me contou:- Marcamos num banquinho da quadra, perto da escola. Antes que você pergunte, eu aviso que eu sei andar esta quadra toda. Nasci e me criei aqui.Balancei a cabeça em sinal de compreensão e ao lembrar de que ele não via meu gesto, falei que entendia.- Eu estava de chapéu e óculos escuros e ele só me reconheceu quando chegou bem perto. Quis sair de fininho, mas eu conhecia seu perfume e o chamei pelo nome. Eustáquio, você sabe que Pancho Villa é só um apelido, né?Alheio ao burburinho do bar, arrumou os cabelos e continuou:- Ele sentou e nós conversamos. Olha, que conversa boa. Não sei se vai rolar namoro, mas, pelo menos, amigos já estamos ficando. Agora, depois do expediente ele sempre sobe e troca um dedo de prosa comigo antes de ir pegar o ônibus. O que você acha? Será que o seu Eulálio pode implicar com a gente? Sabe, Né? Somos funcionários…Acalmei-o e elogiei sua perspicácia. Ele via os sinais melhor do que muita gente. Tanto que nem carecia do dom da adivinhação do outro Tirésias.O tempo passou e eles acabaram se juntando. Verônica e Eulálio fecharam o bar Justamente quando Pancho herdou uma casa em Aparecida de Goiás. Soube que, por sugestão de Tirésias, eles abriram um pezinho sujo lá e fazem uma rabada igual ou melhor que a da Verônica. Espero que consigam sobreviver à crise causada pela Covid e pelo desgoverno. Tô doido para visitar o casal em Goiás, afinal são dois seres que conseguem enxergar um ao outro e isso é difícil. É só a pandemia passar que eu pego a estrada.Quer ir comigo, caro leitor? Vicente SáNovo PS: As Crônicas S/A, agora, estão sendo publicadas nos portais – Central de Jornalismo – www.centraldejornalisamo.com.br e www.aultimafolha.com.br e transmitidas pela Rádio Esplanada FM, todas as segundas feiras às 9 horas da manhã. Os leitores que quiserem ouvir minhas histórias pela minha voz devem acessar o site www.radioesplanadafm.org ou usar o aplicativo radiosnet.com. Até o próximo Domingo ou até amanhã

Administrador

Fonte Segura: Central de Jornalismo

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *