Presidentezinho vira um problemão sem solução

Josias de Souza/UOL
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Central de Jornalismo
10 dez 2020

A má notícia é que Jair Bolsonaro ignora a gravidade da pandemia do século. A péssima notícia é que, embora os números apontem para o avanço da Covid-19 no Brasil, com um incremento do número de diagnósticos e de mortes, o presidente se recusa a compreender que ignorar não é o melhor remédio para a ignorância. Em visita ao Rio Grande do Sul, Bolsonaro declarou que “estamos vivendo o finalzinho de pandemia.” Gripezinha, conversinha, finalzinho… O que mais assusta na preferência por vocábulos com sufixos diminutivos é a sensação de que o capitão executa uma marcha resoluta rumo à autodesmoralização. Desce ao verbete da enciclopédia como um presidentezinho bem menor do que a crise que engolfa a sua Presidência.

Alguém poderia sugerir a Bolsonaro a leitura de um bom livro: “Why Things Bite Back”, de Edward Tenner. O diabo é que a tradução para o português (“A Vingança da Tecnologia”, editora Campus, 1997) ocupa 474 páginas. Algo intransponível para um presidente que maldiz auxiliares que ousam entregar-lhe relatórios com mais de duas folhas.

Melhor, talvez, que algum assessor resuma para Bolsonaro a parte do livro que pode lhe ser mais útil. Vai da página 22 à 25. Conta a experiência do major John Paul Stapp. Médico e biofísico, Stapp foi selecionado pela Força Aérea dos Estados Unidos como cobaia de testes para medir a resistência humana a grandes acelerações. Desafiou a velocidade pilotando um trenó com propulsão de foguete.

Em 1949, Stapp bateu o recorde de aceleração. Não pôde, porém, festejar o feito. Os acelerômetros do trenó-foguete simplesmente não funcionaram. Desolado, Stapp encomendou ao engenheiro que o ajudava, o capitão Edward Murphy Jr., diligências para identificar a falha. Descobriu-se que um técnico ligara os circuitos do veículo ao contrário.

No relatório em que informa sobre o malfeito, o capitão Murphy Jr. anotou: “Se há mais de uma forma de fazer um trabalho e uma dessas formas redundará em desastre, então alguém fará o trabalho dessa forma”. Numa conversa com jornalistas, o major Stapp batizou de “Lei de Murphy” o diagnóstico do auxiliar. Resumiu-o assim: “Se alguma coisa pode dar errado, dará”.

Aplicada ao governo Bolsonaro, a “Lei de Murphy” ajuda a entender por que o governo está sempre dez passos atrás do problema. Podendo administrar a encrenca de várias maneiras, o presidente optou por ligar os fios do seu governo ao contrário. Plugou a administração federal na tomada do negacionismo. Para cada jeito de fazer as coisas, o presidente encontrou dezenas de desculpas para não fazer.

Bem administrados, os desastres podem se transformar em poderosos instrumentos de mudança. Certas coisas, disse o capitão Edward Murphy Jr., às vezes só podem dar certo se derem errado primeiro.

A despeito da falha que o desconsolou em 1949, o major John Paul Stapp continuou testando, por mais cinco anos, a resistência do organismo humano à alta velocidade. No seu último teste, em dezembro de 1954, desacelerou de 1.011 quilômetros por hora para zero em 1,4 segundo.

Stapp iniciou, em seguida, uma vitoriosa campanha para que os cintos de segurança se tornassem obrigatórios nos automóveis. A “Lei de Murphy”, escreveu Edward Tenner, o autor de “A Vingança da Tecnologia”, “não é um princípio fatalista, mas um apelo para que todos se mantenham atentos”.

Se quisesse levar o que lhe resta de mandato a bom termo, Bolsonaro, assim como o major Stapp, teria de testar a sua própria resistência à alta velocidade. Não dispõe de cinco anos. No seu caso, é preciso cuidar dos minutos, porque as horas passam.

Na passagem pelo Rio Grande do Sul, Bolsonaro voltou a se comportar como um gênio sem comprovação científica. Num instante em que o mundo corre atrás das vacinas, insistiu em mencionar a hidroxicloroquina.

“Não temos notícias dos nossos irmãos da África, abaixo do deserto do Saara, grande quantidade de mortes por causa da Covid. E todos esperavam justamente o contrário: que pessoas com alguma deficiência alimentar, pessoas mais pobres fossem ser em maior quantidade vitimadas. E não foram. Por quê? Porque lá eles tratam, porque há muito, infelizmente, a malária, e o elemento chegava com malária e Covid e era tratado com hidroxicloroquina e ficava bom.”

Bolsonaro arrematou: “Precisa ser muito inteligente para entender que a hidroxicloroquina serve para as duas coisas? Não precisa ser muito inteligente, é uma coisa óbvia. E aqueles que me criticavam —’não tem comprovação científica’. Sim, sempre disse que não tinha. Mas é um remédio usado há 70 anos no Brasil para a malária e para lúpus. Por que a politização disso?”

Bolsonaro ainda não se deu conta. Mas a diferença entre a sua genialidade e a estupidez é que a genialidade presidencial tem limites. O capitão do Planalto tornou-se uma evidência vida da efetividade da lei do capitão Murphy: Se há mais de uma forma de fazer um trabalho e uma dessas formas redundará em desastre, então Bolsonaro fará o trabalho dessa forma.

Incapaz de elevar a própria estatura, Bolsonaro reduz o pé-direito do seu mandato. Presidentezinho incorrigível, virou um problemão sem solução. Para complicar, surgiu um agravante. Até aqui, morria-se de Covid. A partir do instante em que o Reino Unido inaugurou a fase da vacinação, morre-se por falta de vacina. Faltam a Bolsonaro vacinas, seringas e bom senso. As pessoas não tardarão a vincular o excesso de mortes à inépcia que o negacionismo produziu.

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Fonte Segura: Central de Jornalismo

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